Polícia recupera oito gravuras de Matisse roubadas em São Paulo
Peças da série Jazz estavam em apartamento em São Bernardo do Campo; as cinco ilustrações de Portinari levadas no mesmo roubo seguem desaparecidas
A Polícia Civil de São Paulo recuperou na quinta-feira (13/8) oito gravuras do pintor francês Henri Matisse roubadas de uma exposição na Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, em 7 de dezembro de 2025. As peças estavam guardadas em um apartamento em São Bernardo do Campo, na região metropolitana, e o homem que morava no imóvel foi preso por receptação.
As obras estão avaliadas em mais de R$ 1 milhão. Fazem parte da série "Jazz", de 1947, um dos trabalhos mais conhecidos da fase final de Matisse, feito com recortes de papel colorido e depois reproduzido em gravura.
A série nasceu de uma limitação física. Depois de uma cirurgia que o deixou sem condições de pintar em cavalete, Matisse passou a recortar papel pintado com guache e a compor as figuras com tesoura, técnica que ele chamou de desenhar com a tesoura. "Jazz" foi editado como livro de artista, com pranchas coloridas acompanhadas de textos manuscritos pelo próprio pintor.
Como foi o roubo
No dia do crime, dois homens armados entraram na biblioteca, renderam um casal de idosos e um vigilante e fugiram com 13 peças: as oito gravuras de Matisse e cinco ilustrações de Cândido Portinari. A ação ocorreu em plena luz do dia, com o prédio aberto ao público.
As ilustrações de Portinari não foram recuperadas. A polícia trabalha com a hipótese de que já tenham sido vendidas. Segundo a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, o roubo foi executado por um grupo especializado nesse tipo de alvo, e a investigação continua para identificar os demais envolvidos e o destino das peças que faltam.
Por que obra roubada é difícil de vender
Peças de artistas com catalogação internacional entram em bases de dados de bens culturais procurados assim que o roubo é comunicado, o que fecha o mercado formal. Casas de leilão, galerias e marchands consultam essas listas antes de aceitar consignação. O resultado prático é que a obra some do circuito legítimo e circula por anos em transações particulares, quase sempre por uma fração do valor de avaliação.
Esse é o motivo pelo qual recuperações costumam vir de investigação sobre receptação, e não de tentativa de venda em leilão. Foi o caso das gravuras de Matisse: o rastreamento chegou ao apartamento onde as peças estavam guardadas, não a uma oferta pública.
O acervo público e o risco
A Biblioteca Mário de Andrade é a principal biblioteca pública municipal de São Paulo e mantém acervo de obras raras, além de receber exposições temporárias. Roubos em instituições culturais expõem uma diferença de tratamento: a segurança patrimonial de acervos costuma ser dimensionada para furto isolado, não para ação armada com abordagem de funcionários.
Em Brasília, o Complexo Cultural da República, o Museu Nacional e a Biblioteca Nacional recebem mostras itinerantes com obras cedidas por acervos de fora do DF, em regime semelhante ao da exposição paulistana. Contratos de empréstimo de acervo entre instituições exigem seguro e plano de segurança específicos para cada mostra.
Com a prisão em São Bernardo do Campo, o inquérito segue para apurar a cadeia entre os autores do roubo e quem guardava as peças. A devolução das gravuras à biblioteca depende da liberação judicial, prática comum quando o material é prova em processo criminal.
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