IA na licao de casa derruba 20% a nota nas provas, aponta estudo com 25 mil alunos
Pesquisa da Universidade de Hong Kong acompanhou estudantes por 30 meses: a nota da tarefa sobe 18% e a nota da prova cai 20%
Estudantes que passaram a usar inteligência artificial para fazer a lição de casa tiveram desempenho 20% pior nas provas do que os colegas que não recorreram à tecnologia, segundo pesquisa da Universidade de Hong Kong divulgada neste domingo, 9. O trabalho acompanhou mais de 25 mil alunos chineses ao longo de 30 meses.
Intitulado "The Generative AI Learning Penalty", o estudo é assinado pelos pesquisadores Victor Lei e Yanhui Wu e foi publicado pelo Centro de Pesquisa de Política Econômica (CEPR). O texto ainda não passou por revisão por pares. O acompanhamento cobriu o período entre setembro de 2022 e junho de 2025, com estudantes matriculados no equivalente aos anos finais do ensino fundamental e ao ensino médio brasileiros.
O ponto central da pesquisa é a distância entre o resultado imediato e o aprendizado. As notas das tarefas de casa dos alunos que usaram IA subiram 18%, e o tempo gasto para concluí-las caiu de 64 para 45 minutos, redução de 30%. Nas avaliações feitas em sala, sem acesso à ferramenta, o efeito se inverteu.
A queda aparece em todas as disciplinas
Seis meses depois da adoção da tecnologia, as notas das provas mensais recuaram 20%. O tamanho da perda varia conforme a área. Em humanidades, a queda foi de 27%. Em ciências exatas, de 22%. Em inglês, de 17%. Em chinês, de 9%.
Nos exames de acesso, o efeito se repete. Entre os alunos que já usavam IA havia pelo menos dois anos, a nota média no Zhongkao, prova que dá acesso ao ensino médio chinês, ficou 24% abaixo da dos colegas que não usaram. No Gaokao, o vestibular nacional, a diferença foi de 18%.
"Terceirizar a lição de casa pode prejudicar não apenas a retenção do material estudado naquele momento, mas também a capacidade de absorção de conteúdos no futuro", registram os autores.
O que muda para a sala de aula
A conclusão dos pesquisadores separa duas coisas que costumam ser tratadas como uma só no debate sobre tecnologia na educação: usar a ferramenta para estudar e usar a ferramenta para entregar a tarefa. No primeiro caso, o aluno continua fazendo o esforço cognitivo que consolida o conteúdo. No segundo, ele entrega o exercício pronto e perde justamente a etapa que produz aprendizado.
O desenho do estudo não avalia usos supervisionados da IA em sala, com professor mediando a atividade. O recorte é o dever de casa feito fora da escola, sem acompanhamento, que é o cenário mais comum entre adolescentes com celular na mão.
- Mais de 25 mil alunos acompanhados por 30 meses, de setembro de 2022 a junho de 2025
- Notas das tarefas de casa 18% maiores entre quem usou IA
- Tempo de tarefa reduzido de 64 para 45 minutos
- Notas de provas mensais 20% menores após seis meses
- Zhongkao 24% menor e Gaokao 18% menor entre usuários de longo prazo
No Brasil, o debate sobre o uso de aparelhos eletrônicos na escola ganhou contornos legais recentes com a restrição ao uso de celular em sala na educação básica. As redes de ensino ainda discutem como tratar as ferramentas de IA generativa nas atividades feitas em casa, ponto que a legislação sobre celulares não alcança.
Pesquisas com desenho semelhante em outros países ainda são escassas, o que limita a generalização dos números chineses. O achado que os autores consideram mais robusto não é o percentual em si, e sim a direção: ganho de nota na tarefa e perda de nota na prova caminham juntos entre os mesmos alunos.