Brasil

Quatro em cada dez mulheres já apostaram em bets, aponta pesquisa

Levantamento ouviu 2.008 pessoas e mostra que 7% das apostadoras recorreram a agiota

Quatro em cada dez mulheres brasileiras já apostaram ou ainda apostam em plataformas de apostas online, segundo pesquisa divulgada na segunda-feira (17) pelo estúdio Clarice, pela Estratégia Latina e pelo Instituto Ideia. O levantamento aponta que 42% delas jogam ou já jogaram, sendo que 20% seguem apostando em frequências variadas e 22% abandonaram a prática.

A etapa quantitativa ouviu 2.008 homens e mulheres, com representatividade nacional construída a partir do Censo 2022 e da PNAD 2025, do IBGE. A etapa qualitativa entrevistou 60 pessoas, em maioria mulheres de 18 a 58 anos das classes C, D e E, em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe. Os dados foram coletados entre junho e agosto de 2026.

Aposta como conta a pagar

O estudo identifica uma motivação diferente da que costuma aparecer no público masculino. Entre as mulheres, a aposta aparece menos como lazer e mais como tentativa de fechar o mês: cobrir boleto, comprar comida e pagar item para os filhos.

Esse recorte se reflete no perfil das apostadoras. Segundo a pesquisa, 72% delas têm filhos, e mulheres com filhos apostam 1,6 vez mais que as sem filhos. Por raça e cor, 45% das pardas, 39% das brancas e 37% das pretas declararam apostar. O horário também difere: 30% das mulheres jogam mais à noite e na madrugada, contra 20% dos homens.

Entre as modalidades citadas pelas apostadoras, 49% apontaram cassinos online, como roleta, caça-níquel e o chamado Tigrinho; 29% citaram crash games, caso do Aviator e das raspadinhas digitais; e 26%, apostas em futebol.

"O impacto das bets vai muito além da crise financeira e afeta as estruturas familiares", afirmou Beatriz Della Costa, fundadora do estúdio Clarice.

Dívida escondida e agiota

O levantamento mede também o endividamento associado às apostas. Entre as apostadoras, 7% disseram ter pegado dinheiro com agiotas. Entre as mulheres afetadas indiretamente, por parentes ou amigos que apostam, 8% relataram que elas ou pessoas próximas precisaram recorrer a esse tipo de empréstimo.

Outro dado trata do que a família não sabe: 15% dos entrevistados acreditam que alguém da casa aposta escondido e acumula dívidas ocultas.

Os efeitos relatados por quem convive com apostadores são principalmente conflitos familiares (24%), perda de confiança (24%), desgaste emocional (21%) e mudança na qualidade de vida (12%). Entre as entrevistadas, 23% disseram ter presenciado ou conhecer situações em que as apostas contribuíram para violência familiar.

Somando quem aposta e quem é afetada de forma indireta, 54% das brasileiras sentem algum efeito das plataformas. E 67% das mulheres concordam que as apostas estão acabando com as famílias brasileiras, percentual maior que o registrado entre os homens, de 59%.

Propaganda e o que as entrevistadas querem

A publicidade aparece como fator central. Para 72% das mulheres, os anúncios contribuem para que apostem mais, e 79% afirmaram que as redes sociais passaram a exibir mais conteúdo sobre apostas depois do primeiro acesso a uma plataforma. Entre as apostadoras frequentes, esse percentual chega a 82,2%.

A pesquisa também mediu posições sobre regulação. Entre as mulheres, 62% defendem a proibição total das apostas, contra 50% dos homens. Outras 41% aceitam que as casas operem, desde que sem propaganda. O bloqueio de Pix para beneficiários de programas sociais é aprovado por 45% dos entrevistados.

Um canal anônimo de apoio a quem quer parar de apostar interessaria a 32% do total e a 57% das apostadoras frequentes.

Os números se somam ao balanço fiscal já divulgado pelos estados, que estimou perda de R$ 62,5 bilhões dos brasileiros com apostas em 2025, com movimentação de R$ 350 bilhões via Pix.

As instituições responsáveis pelo estudo não divulgaram margem de erro para a etapa quantitativa. Procurados, o estúdio Clarice, a Estratégia Latina e o Instituto Ideia não haviam detalhado o dado até a publicação desta reportagem.

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