Cidades

Floração dos ipês-amarelos começa com atraso em Brasília

Botânico da UnB explica que a demora da seca em se consolidar adia o desabrochar; em 2025 a floração se antecipou

A floração dos ipês-amarelos começou com atraso em Brasília neste ano. Com agosto já passando da metade, as árvores só agora abrem as flores que costumam marcar o auge da seca na capital, e o espetáculo chega semanas depois do calendário a que o brasiliense se acostumou.

A explicação está no regime de chuvas, e não no calendário. Segundo Marcelo Kuhlmann, doutor em botânica pela Universidade de Brasília (UnB), o ipê depende de um sinal ambiental para trocar a produção de folhas pela produção de flores, e esse sinal vem da falta de água no solo.

O principal fator é o regime climático. Quando a seca demora a se consolidar ou ocorrem chuvas fora de época, a floração é adiada.

Na prática, a planta interrompe o crescimento vegetativo e redireciona as reservas para as flores quando a disponibilidade de água cai e a estação seca se estabelece. Chuva prolongada ou temperatura atípica empurram esse gatilho para a frente, e a floração escorrega por semanas. Foi o oposto do que ocorreu em 2025, quando as árvores anteciparam a abertura e deram a impressão, agora, de que a espécie está atrasada.

Onde ver os ipês-amarelos na cidade

Os primeiros exemplares floridos já aparecem em pontos conhecidos do Plano Piloto e do entorno imediato:

  • L2 Norte, na altura da quadra 402;
  • área comercial da CLSW 302, no Sudoeste, com um exemplar em plena floração;
  • quadras residenciais da Asa Norte e da Asa Sul, onde as árvores estão distribuídas ao longo das entrequadras.

O ipê-amarelo é uma das árvores mais associadas à paisagem urbana de Brasília justamente por florescer no período mais cinzento do ano, quando o Cerrado perde folhas, o ar seca e a fumaça de queimada tira a nitidez do horizonte. A cor concentrada em copas sem folhas é o efeito visual que faz a floração virar assunto todo ano.

Um indicador do que está acontecendo com o clima

O deslocamento das datas de floração não é apenas curiosidade botânica. Espécies do Cerrado usam pistas ambientais como duração do dia, temperatura e umidade do solo para organizar o ciclo reprodutivo, e mudanças no início e no fim da estação chuvosa alteram esse relógio.

Quando a floração atrasa ou se antecipa, muda também a janela de disponibilidade de recurso para os polinizadores que dependem dessas flores, e muda o período de dispersão das sementes. Por isso a data em que os ipês abrem funciona como um termômetro barato e visível do comportamento da estação seca no Planalto Central.

Neste ano, o atraso chega em meio a uma sequência de dias de umidade relativa do ar muito baixa no Distrito Federal, condição que também pressiona a vegetação e aumenta o risco de incêndio. No começo do mês, o fogo atingiu uma reserva no Guará e forçou a evacuação de uma creche na região.

Quem quiser registrar a floração tem algumas semanas pela frente. O pico costuma durar poucos dias em cada árvore, mas os exemplares não abrem todos ao mesmo tempo, o que estica o período em que é possível encontrar copas amarelas espalhadas pela cidade.

4 visualizações