Brasil

COP17 entra na semana decisiva com impasse no financiamento

Conferência da ONU sobre desertificação tem US$ 1,3 bilhão anunciado diante de uma lacuna de US$ 278 bilhões por ano

A COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) entrou nesta segunda-feira (24) na semana decisiva das negociações, em Ulaanbaatar, na Mongólia, com a tarefa de destravar o financiamento para recuperação de terras degradadas. A conta que separa o anunciado do necessário é grande: US$ 1,3 bilhão de recursos confirmados contra uma lacuna estimada em US$ 278 bilhões por ano.

A segunda-feira foi dedicada justamente ao eixo de finanças para restauração de solos e combate à seca. Os próximos quatro dias definem o texto que sai do encontro.

O tamanho do buraco

O déficit anual de US$ 278 bilhões é a diferença entre o que o mundo gasta hoje e o que seria preciso investir para frear a degradação do solo. Diante disso, os valores já colocados na mesa são modestos.

Entre os anúncios em discussão estão:

  • a Rangelands Flagship Initiative, iniciativa voltada a pastagens, com US$ 1,2 bilhão distribuídos em 45 projetos
  • um programa do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) com US$ 140 milhões iniciais

Outro dado ajuda a explicar o impasse: apenas 6% do financiamento destinado à restauração de terras vem hoje do setor privado. Sem ampliar essa fatia, o volume necessário não sai do papel.

É esse ponto que separa as delegações. Financiamento público e doações internacionais têm limite conhecido e disputam espaço com outras agendas, da saúde ao clima. Puxar capital privado para recuperação de solo exige mostrar retorno, algo mais difícil em pastagem degradada do que em geração de energia, por exemplo. O desenho de garantias e de instrumentos de crédito é justamente o que está sendo negociado nos textos em discussão nesta semana.

Secretária executiva da UNCCD, Yasmine Fouad resumiu a estratégia da conferência para atrair capital privado. "Falamos de financiamento não para doar, mas para investir", afirmou.

Especialista em sustentabilidade do Mecanismo Global da UNCCD, Sarah Toumi apontou que a mudança precisa chegar a quem está na ponta. Segundo ela, os produtores "precisam mudar suas práticas para sobreviver do ponto de vista econômico".

Por que isso interessa a quem mora no DF

Brasília fica no coração do Cerrado, bioma que combina solo pobre, estação seca longa e pressão de expansão agrícola e urbana. A degradação de terra e a escassez hídrica não são temas abstratos para quem passa quatro meses do ano com umidade relativa abaixo dos 30% e acompanha o nível dos reservatórios que abastecem a capital.

O Cerrado também concentra as nascentes de bacias que alimentam boa parte do país. Decisões sobre financiamento de restauração afetam diretamente programas de recuperação de áreas degradadas no Centro-Oeste, inclusive no Distrito Federal, onde a recomposição de matas ciliares depende em grande medida de recursos externos e de contrapartidas.

A UNCCD é uma das três convenções ambientais que nasceram do processo da Rio-92, ao lado das de clima e de biodiversidade. Suas conferências das partes tratam de desertificação, degradação de terras e seca.

No Congresso, o financiamento climático também está em pauta. Em agosto, uma comissão da Câmara aprovou prioridade para a Amazônia Legal no Fundo do Clima.

3 visualizações