CNI: 39% das indústrias preveem alta do endividamento bancário
Consulta com 191 empresas mostra que mais da metade dos empresários espera recorrer a crédito para pagar fornecedores, salários e tributos
Quatro em cada dez indústrias brasileiras esperam aumentar o endividamento bancário nos próximos três meses, segundo consulta divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) nesta segunda-feira (3). O percentual exato é de 39%, e o motivo apontado pelos empresários é o custo do dinheiro: a Selic está em 13,75% ao ano, e o Copom se reúne nesta quarta-feira (5) para definir o próximo passo.
O levantamento ouviu 191 empresas industriais de 30 setores em 20 estados, entre 13 e 24 de julho.
Mais da metade dos entrevistados, 53%, avalia que precisará de mais crédito apenas para tocar a operação corrente, o que inclui pagamento de fornecedores, salários e tributos. Desses, 38% esperam pagar juros mais altos nesse tipo de financiamento.
O que a consulta mostra por finalidade do crédito
- 39% preveem aumento do endividamento bancário nos próximos três meses;
- 53% acreditam que vão precisar de mais crédito para contas a pagar;
- 47% devem intensificar o uso de crédito atrelado a contas a receber, e 42% esperam custo maior nessa linha;
- 42% pretendem ampliar o crédito para gestão de estoques, contra 13% que planejam reduzir;
- 42% projetam juros mais altos no financiamento de estoque.
O efeito aparece no resultado. A consulta indica que 58% das empresas preveem redução da margem líquida no período. Para tentar compensar, 37% pretendem elevar preços de venda, enquanto 51% dizem que vão manter os valores atuais.
Como isso chega a Brasília
O Distrito Federal não é polo industrial, mas o repasse aparece na ponta. Reajuste de preço na indústria de alimentos, bebidas, material de construção e produtos de limpeza chega ao varejo local em poucas semanas, e o crédito mais caro também encarece a operação das transportadoras que abastecem a capital.
A decisão do Copom desta quarta é o próximo dado a acompanhar. O boletim Focus divulgado nesta segunda manteve a projeção de Selic em 13,75% para o fim do ano e IPCA de 5,03%, acima do teto da meta.
A consulta empresarial da CNI é feita com periodicidade e não substitui a Sondagem Industrial mensal, que mede utilização da capacidade instalada, estoques e emprego. Os dados foram apresentados por técnicos da entidade, entre eles a analista de Políticas e Indústria Maria Virginia Colusso e o gerente de Política Econômica Kleber de Castro.
Endividamento para operar, não para investir
O detalhe que separa esta consulta de um retrato de expansão é a finalidade do crédito. Nenhuma das linhas mais citadas está ligada a nova fábrica, nova linha de produção ou compra de máquina. As três finalidades que puxam a demanda são capital de giro puro: pagar quem fornece, financiar quem compra a prazo e sustentar estoque parado.
Quando a empresa toma crédito caro para bancar a operação corrente, o custo financeiro entra na formação de preço no ciclo seguinte. É o que explica a combinação de 58% projetando margem menor e 37% já admitindo repasse.
A leitura também ajuda a entender por que metade do setor prefere segurar preço. Com demanda fraca, reajustar tabela custa volume de venda, e a empresa acaba escolhendo comprimir a margem em vez de perder cliente.
O que observar nos próximos dias
- a decisão do Copom nesta quarta-feira (5) e o comunicado que a acompanha;
- a próxima Sondagem Industrial da CNI, que mede utilização da capacidade instalada e emprego;
- o comportamento do IPCA de serviços, mais sensível ao repasse de custo financeiro.