Uefa rejeita desculpas de Infantino e mantem o boicote a Fifa
Entidade europeia diz que as duas condicoes para encerrar o impasse nao foram cumpridas e afirma ter perdido a confianca na presidencia
A Uefa rejeitou o pedido de desculpas de Gianni Infantino e manteve a decisão de boicotar as competições e os eventos ligados à Fifa. A entidade europeia comunicou a posição na quinta-feira, 6, dois dias depois de o presidente da Fifa se desculpar formalmente com as 211 federações filiadas em reunião realizada no Marrocos.
A crise tem origem na tentativa da Fifa de vender participação nos direitos comerciais do futebol por meio da Fifa Forward Enterprise (FFE), estrutura criada para captar bilhões de dólares em investimento privado. Diante da reação das confederações, Infantino recuou do projeto e reconheceu erros na forma como as informações foram divulgadas, além de admitir que as federações não haviam sido incluídas no processo.
Para a Uefa, o recuo não basta. A entidade estabeleceu duas condições para encerrar o boicote: a retirada definitiva das propostas de venda das principais competições e garantias de que tentativas de desfigurar o futebol dessa maneira nunca mais seriam feitas. Segundo o comunicado europeu, essas condições não foram cumpridas.
A confiança na presidência entrou na conta
O ponto que trava a negociação deixou de ser apenas o projeto. A Uefa afirmou ter perdido a confiança na presidência de Gianni Infantino, o que desloca o impasse do plano comercial para o comando da entidade. Na reunião do Marrocos, realizada em 5 de agosto, não houve comunicado oficial ao fim dos trabalhos, e a permanência de Infantino no cargo seguiu em aberto.
A dimensão financeira explica a resistência. A FFE foi avaliada em US$ 20 bilhões e concentraria os direitos comerciais da entidade, com plano de vender 20% da estrutura a investidores privados, o que levantaria cerca de US$ 4,2 bilhões. Na prática, parte da receita futura das competições passaria a ter sócio com expectativa de retorno, condição que as federações leram como perda de controle sobre o calendário e o formato dos torneios.
O boicote foi aprovado por unanimidade pelas 55 federações filiadas à Uefa em reunião de 30 de julho. A decisão alcança todas as competições e eventos da Fifa, e a ausência das seleções europeias muda o desenho de qualquer torneio da entidade, do formato à distribuição de vagas e à negociação dos direitos de transmissão, que têm no mercado europeu parte relevante da receita. Estão no bloco França, Inglaterra, Espanha, Alemanha e Itália, além das demais 50 federações do continente.
Como a crise se desenhou
A sequência de eventos ajuda a medir a velocidade da escalada. Antes da decisão do boicote, federações como Sérvia, Suécia e País de Gales já haviam retirado o apoio à reeleição de Infantino. Em seguida veio a votação unânime na Uefa. Na sequência, a reunião de emergência convocada no Marrocos e, por fim, a recusa europeia em aceitar o pedido de desculpas.
A Concacaf, confederação que reúne países da América do Norte, América Central e Caribe, também atuou para barrar o projeto da FFE. Nesse ponto, a disputa deixou de ser apenas europeia e passou a envolver o eixo que sedia parte relevante das competições da entidade.
O que está em jogo é a governança do futebol internacional: quem decide calendário, formato e divisão de receita quando acionistas privados entram na estrutura de propriedade dos direitos comerciais. Enquanto as duas condições da Uefa não forem atendidas por escrito, o boicote permanece de pé, e a Fifa fica com um calendário de competições cuja viabilidade depende da adesão do continente que mais arrecada com o esporte. O boicote havia sido aprovado no fim de julho pelas 55 federações europeias.