PCDF derruba grupo que faturava R$ 1 milhão por mês com dados sigilosos
Operação Dark Spot cumpriu quatro mandados de prisão e seis de busca em quatro estados; plataforma vendia consultas a bases da Receita, do Detran e de órgãos de segurança
A Polícia Civil do Distrito Federal desarticulou uma organização criminosa que faturava mais de R$ 1 milhão por mês com a venda ilegal de dados sigilosos de brasileiros e de autoridades públicas. A Operação Dark Spot foi deflagrada em 29 de julho pela Delegacia Especial de Repressão aos Crimes Cibernéticos, com quatro mandados de prisão e seis de busca e apreensão.
As ordens judiciais foram cumpridas em Três Passos e Gravataí, no Rio Grande do Sul, em Bragança Paulista, em São Paulo, e em Casimiro de Abreu e Rio das Ostras, no Rio de Janeiro. A Justiça também determinou o bloqueio de até R$ 2 milhões em ativos dos investigados.
O que a plataforma vendia
Segundo a investigação, o grupo mantinha uma plataforma digital que comercializava consultas a bancos de dados protegidos por sigilo legal. Estavam no cardápio informações da Receita Federal, registros da Carteira Nacional de Habilitação, dados de veículos, processos judiciais e conteúdo de sistemas corporativos de órgãos de segurança pública.
O pagamento era feito em créditos comprados por Pix e em criptomoedas, modelo que dificulta o rastreamento do dinheiro. A apuração identificou movimentação comprovada de R$ 450 mil entre dezembro de 2024 e março de 2025, além da estimativa de arrecadação mensal acima de R$ 1 milhão.
- 18 milhões de requisições ao sistema entre maio de 2023 e junho de 2024
- 257 mil endereços de IP distintos acessaram a plataforma
- 45.134 cadastros e 7.242 usuários ativos
- R$ 450 mil em movimentação comprovada entre dezembro de 2024 e março de 2025
- R$ 2 milhões em ativos bloqueados por decisão judicial
Estrutura recriada a cada queda
A resiliência do esquema chamou a atenção dos investigadores. Quando um servidor caía ou um integrante era preso, o grupo migrava a plataforma para uma nova hospedagem, substituía os responsáveis e recriava o sistema praticamente idêntico ao anterior, mantendo a base de clientes e o fluxo de vendas.
Os investigados respondem por invasão de dispositivo informático qualificada, receptação qualificada, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Somadas, as penas podem chegar a 46 anos e 4 meses de reclusão.
A plataforma registrou mais de 18 milhões de requisições em pouco mais de um ano, com 45.134 cadastros e 7.242 usuários ativos, segundo a apuração da Polícia Civil.
Por que isso importa para quem mora no DF
Brasília concentra servidores públicos, magistrados, policiais e autoridades cujos dados têm valor de mercado no submundo digital. O acesso a endereço, placa de veículo, vínculo funcional e movimentação processual alimenta desde golpes financeiros até a preparação de crimes contra a pessoa.
A venda de consultas também atinge o cidadão comum. Uma base com CPF, endereço e histórico de veículos é insumo direto para fraudes bancárias e para o golpe do falso funcionário, em que o criminoso demonstra conhecer detalhes da vida da vítima para ganhar confiança.
Casos de repasse de informações sigilosas por dentro da estrutura pública já apareceram outras vezes no DF. Leia também: Policial penal denunciado por repassar dados de servidor a organização criminosa.
A PCDF informou que a investigação continua para identificar clientes da plataforma e possíveis colaboradores com acesso privilegiado aos sistemas consultados.