Lula e Putin falam por uma hora sobre comércio, fertilizantes e Ucrânia
Presidentes trataram de diesel, insumos agrícolas e cooperação no Brics; Lula criticou a inércia do Conselho de Segurança da ONU
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou por telefone com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, nesta terça-feira (4). A ligação durou cerca de uma hora e tratou de comércio bilateral, fornecimento de combustíveis e fertilizantes, cooperação em energia e tecnologia e a guerra na Ucrânia.
Segundo o governo russo, os dois líderes se comprometeram a dar atenção especial à expansão e à diversificação do comércio entre os dois países. Lula manifestou interesse em ampliar as exportações brasileiras para o mercado russo e em buscar mais equilíbrio na balança comercial, hoje favorável à Rússia.
O peso do diesel e do fertilizante
A importância do fornecimento russo de diesel e de fertilizantes para a economia brasileira foi destacada na conversa. A Rússia é uma das principais origens dos insumos usados pelo agronegócio brasileiro, e a dependência desses produtos aparece nas contas do setor a cada temporada de plantio.
O tema tem efeito direto sobre o custo do alimento que chega à mesa do brasiliense. Alta no preço do fertilizante importado pressiona o custo da safra, e o repasse aparece meses depois no preço do arroz, do feijão e da carne no supermercado. O diesel, por sua vez, encarece o frete de tudo o que entra no Distrito Federal por rodovia.
Os presidentes também demonstraram intenção de ampliar parcerias em energia, ciência, tecnologia e indústria naval, e reafirmaram o compromisso de atuação conjunta nos foros internacionais, sobretudo no Brics.
Ucrânia e a crítica à ONU
Lula e Putin conversaram sobre a guerra na Ucrânia. O presidente brasileiro manifestou decepção com a incapacidade do Conselho de Segurança das Nações Unidas de encontrar solução para os conflitos em curso no mundo, segundo a versão divulgada pelo Palácio do Planalto.
Na mesma conversa, Lula defendeu a candidatura da ex-presidente do Chile Michelle Bachelet ao cargo de secretária-geral da ONU. A sucessão no comando da organização entra em fase decisiva neste ano, e o Brasil tem trabalhado por um nome latino-americano.
O Conselho de Segurança é formado por cinco membros permanentes com poder de veto, entre eles a Rússia. A reforma do colegiado é bandeira antiga da diplomacia brasileira, que pleiteia assento permanente.
Uma relação comercial desequilibrada
O comércio entre Brasil e Rússia é marcado por um desequilíbrio antigo. O Brasil compra sobretudo fertilizantes e derivados de petróleo, itens de valor alto e volume grande, e vende principalmente produtos do agronegócio, como carne, café e açúcar. O interesse manifestado por Lula na conversa é justamente ampliar a lista de produtos brasileiros vendidos ao mercado russo.
A pauta ganhou relevância desde 2022, quando as sanções ocidentais contra Moscou redesenharam as rotas de comércio de energia e de insumos agrícolas. O Brasil manteve as compras e passou a figurar entre os principais destinos do diesel russo.
O que vem depois
Nenhum encontro presencial entre os dois foi anunciado após a ligação. Brasil e Rússia integram o Brics ao lado de China, Índia, África do Sul e dos países que aderiram ao bloco nos últimos anos, e a articulação entre os membros costuma ser tratada em conversas preparatórias como esta.
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