Juízas afegãs que fugiram do Talibã reconstroem a vida no DF
Sete magistradas retiradas do Afeganistão em 2021 pela AMB vivem em Brasília e enfrentam idioma, adaptação e revalidação de diploma
Sete juízas afegãs retiradas do Afeganistão depois da volta do Talibã ao poder, em 2021, vivem hoje no Distrito Federal e recomeçaram a vida na capital com o apoio de entidades da magistratura e de organizações de acolhimento a refugiados. O caso voltou ao noticiário neste domingo (9), em reportagem do Metrópoles sobre a rotina das magistradas e de suas famílias em Brasília.
A retirada das juízas e dos familiares foi articulada pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), com sede em Brasília. A seleção levou em conta o grau de risco a que cada uma estava exposta caso permanecesse no país, onde mulheres foram afastadas de cargos públicos e do sistema de Justiça após a tomada de poder.
Da toga ao recomeço
No Afeganistão, elas julgavam processos, muitos deles contra homens condenados por violência doméstica e por crimes graves. Com a queda do governo anterior e a soltura de presos, magistradas passaram a ser alvo de ameaças diretas das pessoas que haviam sentenciado. Chegar ao Brasil resolveu o problema imediato da segurança e abriu outro, mais longo: reconstruir profissão, língua e vida cotidiana em um país que não conheciam.
Uma das entrevistadas pela reportagem, identificada pelo nome fictício de Farzana Ahmadi, chegou ao DF em 2022, um ano depois do grupo de magistradas. Ela trabalha com tradução e interpretação e atua no apoio à comunicação de refugiados e migrantes, função que depende justamente da barreira que precisou vencer.
"O português é distante do dari e do pashto, línguas faladas no Afeganistão", afirmou Farzana ao Metrópoles.
Em outro trecho da entrevista, ela associa escolaridade e autonomia: "A educação faz uma mulher entender quem ela é, conhecer sua história".
Quem dá suporte em Brasília
O acolhimento das famílias contou com a atuação do Instituto SHE, organização que trabalha com integração social e econômica de refugiados na capital. Roberta Abdanur, cofundadora da entidade, avalia que a situação no país de origem segue crítica.
"O Afeganistão vive uma das maiores crises humanitárias do mundo", disse Roberta Abdanur, cofundadora do Instituto SHE.
Na chegada do grupo, o Governo do Distrito Federal ofereceu vaga escolar para as crianças, acesso à rede pública de saúde e o encaminhamento da documentação básica, como RG e CPF, itens sem os quais um refugiado não abre conta bancária, não assina contrato de aluguel nem é contratado formalmente.
Brasília aparece com frequência nesse tipo de operação por uma razão prática: é onde ficam os ministérios responsáveis pela política migratória, o Comitê Nacional para os Refugiados e as entidades nacionais da magistratura, como a própria AMB.
O que ainda pesa
A reportagem descreve como principais obstáculos o idioma, a adaptação cultural e o reconhecimento da formação obtida no exterior. Diplomas de direito emitidos no Afeganistão não habilitam ao exercício da advocacia ou da magistratura no Brasil sem revalidação, processo que passa por universidades públicas e costuma se arrastar. Na prática, profissionais com anos de carreira acabam em ocupações que não usam a formação original.
A rede local que recebe famílias nessa situação é a mesma que atende a população em vulnerabilidade no DF: unidades básicas de saúde, escolas públicas e os Centros de Referência de Assistência Social, que também respondem pelo cadastro em programas sociais, como mostra a reportagem do DistritoNews sobre o atendimento dos CRAS no DF.
Os nomes das magistradas seguem preservados. Na reportagem, a entrevistada é identificada por nome fictício, precaução adotada por causa dos familiares que permaneceram no Afeganistão.