Morre Zenaide Azeredo, repórter que cobriu os quartéis em Brasília
Jornalista tinha 77 anos, passou por cinco grandes jornais e foi a primeira assessora de imprensa do Ministério da Defesa
A jornalista Zenaide Azeredo morreu aos 77 anos na segunda-feira (17), em Brasília. O sepultamento foi realizado nesta quinta-feira (20), às 9h, no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul. A família não divulgou a causa da morte. A informação foi publicada pelo Jornal de Brasília.
Zenaide construiu mais de quatro décadas de carreira na imprensa da capital e ficou conhecida pela cobertura da área militar, um dos setores mais fechados de Brasília. Passou por Jornal do Brasil, O Globo, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Jornal de Brasília.
Ela acompanhou de perto a transição do regime militar para a democracia nos anos 1980, período em que a relação entre a imprensa e os quartéis exigia fontes construídas ao longo de anos. Também cobriu pautas de povos indígenas, a atuação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e participou do movimento Brasília-Mulher.
Da redação para a assessoria da Defesa
Depois da carreira em redações, Zenaide foi a primeira assessora de imprensa do Ministério da Defesa, criado em 1999, no governo Fernando Henrique Cardoso. A função exigia intermediar a relação entre as três Forças e os jornalistas em um ministério recém-formado.
Entre 2003 e 2010, atuou na comunicação da Secretaria de Previdência Complementar, então vinculada ao Ministério da Previdência Social.
Colegas de profissão lembraram a especialização dela na cobertura militar. "Ela entendia muito de cobertura militar e conseguia abordar o assunto de uma forma muito boa", disse o jornalista Ivan Godoy, que trabalhou com Zenaide.
"Ela sempre foi uma repórter muito séria e passamos anos como concorrentes, mas sempre companheiras respeitosas", afirmou a jornalista Tânia Monteiro.
Em nota, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) declarou que "a trajetória de Zenaide deixa o legado do jornalismo ético, correto, preciso".
Uma geração que cobriu a redemocratização
A morte de Zenaide se soma à de outros nomes que formaram a imprensa de Brasília no período. Neste mês, morreu em Brasília o jornalista Luiz Gutemberg, aos 88 anos. Leia: Jornalista Luiz Gutemberg morre aos 88 anos em Brasília.
A cobertura de Defesa em Brasília se organiza em torno de um circuito restrito: Ministério da Defesa, comandos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, comissões de relações exteriores do Congresso e adidos militares de embaixadas. É uma editoria de acesso difícil, em que a checagem depende de fontes cultivadas por anos e de documentos oficiais nem sempre públicos.
O Ministério da Defesa foi criado em 1999 e reuniu sob um comando civil os antigos ministérios da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, além do Estado-Maior das Forças Armadas. O primeiro titular da pasta foi Élcio Álvares. Montar a assessoria de imprensa de um ministério nessas condições significou construir do zero o fluxo de informação entre as três Forças e a imprensa.
Zenaide deixa colegas e ex-alunos de redação espalhados por veículos da capital. As homenagens começaram a circular nas redes de entidades de classe e de profissionais que trabalharam com ela ao longo das décadas de 1980 e 1990.