Hip hop é reconhecido como cultura nacional; DF tem cena pioneira
Projeto aprovado pela Câmara vai ao Senado; sessão homenageou fundador da Casa do Hip Hop de Ceilândia
A Câmara dos Deputados aprovou na terça-feira (15) o projeto de lei que reconhece o hip hop como manifestação da cultura nacional. A decisão tem endereço certo no Distrito Federal: Ceilândia e o Setor Comercial Sul estão entre os berços mais antigos do movimento no país, e a cena candanga tende a ser uma das primeiras a sentir os efeitos práticos do novo status.
O texto, de autoria do deputado Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), segue agora para o Senado. Em plenário, os deputados aprovaram o substitutivo do relator, deputado Inácio Arruda (PCdoB-CE), que retirou da versão original a expressão "gênero de música popular". A mudança garante que o reconhecimento alcance o movimento inteiro, e não apenas o rap.
O que muda para os coletivos do DF
O status de manifestação da cultura nacional aproxima o hip hop das políticas públicas do setor e fortalece os artistas em três frentes:
- Enquadramento em editais e programas de fomento, caso do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), que abriu R$ 36 milhões para projetos culturais no DF;
- Base legal para políticas locais voltadas a rap, breaking, grafite e DJs;
- Reconhecimento em ações de preservação e memória.
Para os coletivos de Ceilândia, Samambaia e do Setor Comercial Sul, isso significa argumento jurídico a mais na disputa por recursos e por espaço em equipamentos públicos de cultura. O Congresso já aplicou o mesmo instrumento a outros setores, como no reconhecimento das cooperativas como manifestação da cultura nacional.
Ceilândia citada no plenário
A sessão de votação homenageou o rapper e ativista cultural Rivas Alves, fundador da Casa do Hip Hop de Ceilândia. A menção reconhece o peso histórico da cidade no movimento.
Desde os anos 1990, nomes como GOG e Câmbio Negro projetaram o rap candango para todo o país. No Setor Comercial Sul, encontros de rua de dançarinos, DJs e MCs formaram gerações de artistas, e Ceilândia segue como referência do breaking e do rap no Centro-Oeste.
O relator defendeu a aprovação ligando o movimento às raízes da cultura popular brasileira.
"O hip hop tem uma relação direta com o repente", afirmou Inácio Arruda ao apresentar o parecer em plenário.
Os elementos do movimento
O projeto trata o hip hop como cultura completa, formada por elementos que se articulam entre si:
- o DJ, responsável pela base musical;
- o MC, voz das rimas e do rap;
- o breaking, a dança;
- o grafite, a expressão visual;
- o "knowledge", conhecimento que orienta o movimento.
Próximos passos
A proposta tramita agora no Senado. Se os senadores aprovarem o texto sem alterações, ele segue para sanção presidencial; qualquer mudança devolve o projeto à Câmara.
No Brasil, o hip hop se enraizou a partir dos anos 1980, primeiro nos bailes e encontros de rua de São Paulo, e logo se espalhou pelas periferias das grandes cidades. O reconhecimento legal chega a uma cultura com mais de quatro décadas de história no país e presença consolidada em escolas, batalhas de rima e festivais, inclusive no centro de Ceilândia, área que passa por revitalização do GDF.