Estudo aponta subdiagnóstico da doença renal crônica no Brasil
Levantamento com mais de 14 mil pessoas mostra que o exame de albuminúria é pedido em menos de 5% dos pacientes de alto risco que fizeram creatinina
Um estudo publicado no Brazilian Journal of Nephrology aponta que a doença renal crônica é subdiagnosticada no Brasil porque os exames que a identificam raramente são pedidos em conjunto nos pacientes de maior risco. O levantamento avaliou mais de 14 mil pessoas e mostrou que, entre quem fez o exame de creatinina no sangue, menos de 5% também teve o teste de albuminúria solicitado.
A doença atinge mais de 20 milhões de brasileiros, cerca de 10% da população, e mais de 170 mil pessoas estão em diálise no país. A pesquisa foi conduzida em colaboração com o Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e reuniu ainda a Universidade Estadual de Campinas, a Escola Bahiana de Medicina, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia e a Arbor Research Collaborative for Health.
Por que os dois exames precisam andar juntos
O diagnóstico da doença renal crônica depende de duas medidas complementares. A creatinina no sangue permite estimar a taxa de filtração glomerular, ou seja, o quanto o rim ainda consegue filtrar. A albuminúria mede a presença de proteína na urina e indica lesão renal mesmo quando a filtração ainda parece normal.
Pedir apenas o primeiro exame deixa de fora justamente o estágio inicial, quando a intervenção tem mais efeito. O resultado prático é o paciente chegar ao nefrologista já com perda funcional avançada, quadro em que o tratamento disponível se resume a diálise ou transplante.
Segundo o estudo, mesmo após uma campanha nacional de rastreamento o percentual de solicitação da albuminúria permaneceu abaixo de 7%, o que os autores associam à falta de hábito na prática clínica de completar o rastreamento.
Quem está no grupo de maior risco
- Pessoas com diabetes, principal causa de doença renal crônica no país;
- Pessoas com hipertensão arterial, que danifica os vasos que irrigam os rins;
- Pacientes com histórico familiar de doença renal;
- Pessoas com obesidade ou doença cardiovascular;
- Idosos, pela redução natural da função renal com a idade.
Para esses grupos, a recomendação corrente é a avaliação periódica com os dois exames. Ambos estão disponíveis na rede pública e são de baixo custo, o que torna o subdiagnóstico um problema de rotina assistencial, e não de acesso a tecnologia cara.
O impacto no sistema público
A conta do diagnóstico tardio recai sobre o SUS. Um paciente em diálise faz três sessões por semana, em média, e passa a depender de transporte, acompanhamento nutricional e medicação contínua. Quando a doença é identificada cedo, o controle de pressão e glicemia e o ajuste de medicamentos podem retardar em anos a necessidade de terapia renal substitutiva.
Os pesquisadores indicam que o número real de pacientes em diálise pode superar o registrado atualmente, justamente pela deficiência no diagnóstico precoce. A doença renal crônica costuma avançar sem sintoma claro nos estágios iniciais, o que reforça o peso do rastreamento laboratorial.
Em Brasília, o acompanhamento de pacientes renais crônicos é feito na rede pública do Distrito Federal, com unidades de referência para hemodiálise. A porta de entrada continua sendo a atenção primária, onde o pedido dos dois exames em pacientes com diabetes ou hipertensão é o passo que o estudo aponta como falho.