Saúde

Doença inflamatória intestinal cresce 5 vezes no Brasil e chega a 158 casos por 100 mil

Prevalência saltou de 30 para 158 casos por 100 mil em 13 anos, e o estudo com dados do SUS projeta 264 até 2035. Tratar custa até R$ 500 mil ao ano.

Neste texto6 tópicos
  1. Que doenças são essas
  2. O que os números mostram
  3. Por que o ultraprocessado entra na conta
  4. Quanto custa tratar
  5. O gargalo é o tempo até o diagnóstico
  6. O que acompanhar agora

O número de brasileiros com doença inflamatória intestinal cresceu cinco vezes em 13 anos. A prevalência passou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025, segundo estudo apresentado nesta semana no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, em Balneário Camboriú (SC).

O levantamento usou registros do Sistema Único de Saúde e foi feito por dois membros da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, Abel Quaresma, da Universidade do Oeste de Santa Catarina, e Paulo Kotze, da PUC do Paraná, em parceria com pesquisadores das universidades de Calgary, no Canadá, da USP e da Unicamp. "São doenças que até por volta de 2015 eram consideradas doenças raras. E que estão tendo um boom em todo o mundo, inclusive no Brasil", disse Quaresma à Agência Brasil.

Que doenças são essas

Doença inflamatória intestinal é o nome que reúne principalmente duas enfermidades: a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa. As duas são autoimunes. O sistema imunológico passa a atacar células e tecidos do próprio corpo, e disso resulta um processo de inflamação crônica no intestino.

Não há uma causa única. Os pesquisadores trabalham com a hipótese multifatorial: parte genética, parte ambiental. Há variações genéticas associadas ao desenvolvimento das duas doenças, mas nem todo paciente diagnosticado tem essas variações, o que joga peso sobre o ambiente e sobre a alimentação.

Tabela com prevalência e incidência da doença inflamatória intestinal no Brasil em 2012, 2025 e a projeção para 2035
A prevalência cresceu bem mais rápido que a incidência, porque o paciente diagnosticado convive com a doença por décadasArte: DistritoNews, com dados do estudo apresentado no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia

O que os números mostram

Há duas medidas diferentes no estudo, e confundir uma com a outra muda a leitura. A prevalência conta quantas pessoas convivem com a doença; foi ela que saltou de 30 para 158 por 100 mil. A incidência conta quantos casos novos aparecem por ano, e subiu menos: de 9,35 para 12,34 por 100 mil habitantes no mesmo período.

A projeção dos pesquisadores é que a incidência chegue a 22,7 casos novos por 100 mil em 2035. Se isso se confirmar, a prevalência iria a 264 por 100 mil habitantes, ou 67% acima do patamar de 2025. "A gente projeta que, a partir de 2040, vai se tornar problema de saúde pública, como é a pressão alta, o diabetes", afirmou Quaresma.

Por que o ultraprocessado entra na conta

O pesquisador aponta os aditivos dos alimentos industrializados como um dos fatores em estudo. Conservantes, corantes e espessantes, que barateiam o produto, dão volume, cor e cheiro e prolongam a validade, aparecem entre os suspeitos de induzir o processo inflamatório.

Ele resume a mudança com um exemplo doméstico: "Vinte anos atrás, você comprava um pão na padaria e, quatro ou cinco dias depois, ele mofava. Hoje em dia compra-se um pão de forma, ele fica três meses pronto para ser usado."

Quanto custa tratar

As duas doenças não têm cura. O tratamento controla a inflamação e os sintomas, e costuma durar a vida inteira, porque o diagnóstico com frequência vem cedo. Segundo Quaresma, o custo dos medicamentos chega a R$ 500 mil por ano por paciente, o que explica por que a conta pesa no orçamento do SUS quando a prevalência multiplica.

  • Prevalência em 2012: 30 casos por 100 mil habitantes
  • Prevalência em 2025: 158 casos por 100 mil habitantes
  • Casos novos por ano em 2012: 9,35 por 100 mil
  • Casos novos por ano em 2025: 12,34 por 100 mil
  • Projeção de casos novos para 2035: 22,7 por 100 mil
  • Projeção de prevalência para 2035: 264 por 100 mil

O gargalo é o tempo até o diagnóstico

Doença crônica de base imunológica esbarra sempre no mesmo problema no serviço público: o intervalo entre o primeiro sintoma e o laudo. É a mesma queixa que aparece em outras condições acompanhadas pelo SUS, como no caso em que o paciente de esclerose múltipla espera dois anos e meio pelo diagnóstico. Quanto mais tarde o diagnóstico, maior a chance de a inflamação já ter causado dano que exige cirurgia.

Na Câmara dos Deputados tramita um projeto que fixa prazo para a realização de exames no SUS e obriga a rede pública a aceitar laudo feito na rede privada, proposta que atinge diretamente esse intervalo.

O que acompanhar agora

O 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia segue até este sábado (26) em Balneário Camboriú, e é ali que os autores devem detalhar o recorte por faixa etária e por região. A Sociedade Brasileira de Coloproctologia mantém no próprio site uma área destinada a pacientes, separada da área médica, que é a porta de entrada para quem tem sintoma persistente e ainda não chegou ao gastroenterologista ou ao coloproctologista.

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