Brasil

Audiência na Câmara aponta alta da violência contra mulheres no ensino

Dados do TCU mostram política contra assédio em apenas 29 de 69 universidades públicas analisadas

Participantes de audiência pública na Câmara dos Deputados denunciaram o aumento da violência contra mulheres em escolas e universidades brasileiras. O debate ocorreu na quarta-feira (12), na Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial, presidida pela deputada Erika Kokay (PT-DF).

A presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, apresentou dados de levantamento do Tribunal de Contas da União segundo o qual 67% das estudantes brasileiras ouvidas já haviam sofrido algum tipo de violência praticada por homens. O mesmo levantamento, de 2015, apontou que 36% das vítimas deixaram de participar de atividades acadêmicas por medo de novas situações de violência.

"O homem que praticou a violência não está deixando a sala de aula", afirmou a dirigente estudantil, ao descrever o efeito de a vítima se afastar enquanto o agressor permanece na instituição.

Auditoria achou política contra assédio em menos da metade das universidades

A diretora da Unidade de Auditoria Especializada em Educação, Cultura, Esporte e Direitos Humanos do TCU, Wanessa Carvalho, apresentou o resultado de auditoria que identificou política institucional de combate ao assédio sexual em apenas 29 das 69 universidades públicas analisadas.

A coordenadora do programa de extensão da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Rosely Silva Pires, cobrou clareza sobre a responsabilização dentro das instituições. "Quando um professor será penalizado? Quando um estudante será punido?", questionou.

A presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), Roberta Pontes, tratou da violência que atinge estudantes da educação básica e citou o caso de uma menina de 11 anos assassinada há cerca de um ano.

Para Erika Kokay, que preside o colegiado, a misoginia funciona como base das demais formas de violência de gênero. A Câmara já analisa projeto que equipara a misoginia ao crime de racismo, em tramitação separada.

O que os participantes propuseram

As sugestões apresentadas na audiência foram, em resumo:

  • ação integrada entre universidades, Ministério Público e Defensoria Pública;
  • criação de ouvidorias e corregedorias internas comandadas por mulheres;
  • fluxo próprio de acolhimento para que a estudante não precise dividir espaço com o agressor durante a apuração.

Audiência pública não gera decisão. O que sai dela são requerimentos, projetos de lei e pedidos de informação, que precisam tramitar pelas comissões para virar norma. O colegiado não anunciou prazo para apresentar proposta a partir do debate.

A cobrança por ouvidoria e corregedoria internas tem endereço prático. Hoje, a apuração de assédio dentro de uma universidade federal corre por comissão de sindicância montada caso a caso, com prazo e composição definidos pela própria instituição. Foi essa ausência de política permanente que a auditoria do TCU mediu ao encontrar estrutura formal em 29 das 69 universidades analisadas.

O dado sobre afastamento também explica por que o problema fica invisível na estatística oficial. A estudante que interrompe a atividade acadêmica costuma não registrar denúncia, e o caso não entra na contagem da instituição nem na de segurança pública.

O tema tem endereço em Brasília por dois motivos. O primeiro é institucional: as decisões sobre a rede federal de ensino saem do Congresso e do Ministério da Educação, ambos na capital. O segundo é local: a Universidade de Brasília e os institutos federais do DF estão sujeitos às mesmas regras discutidas na audiência.

Os dados apresentados pelo TCU são de 2015 e não foram atualizados na audiência. Nenhum dos participantes apresentou levantamento mais recente com abrangência nacional, o que deixa em aberto o tamanho atual do problema.

As instituições citadas de forma genérica no debate não foram nominadas pelos participantes, e não houve manifestação de representantes de universidades específicas durante a reunião.

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