Lula diz na ONU que o Brasil não cabe no quintal de ninguém; Trump ameaça usar força na América Latina
Lula abriu o Debate Geral da ONU com defesa da soberania e crítica ao Conselho de Segurança. Trump falou depois e ameaçou usar força na América Latina.
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu nesta terça-feira o Debate Geral da 81ª Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York, com uma defesa da soberania brasileira. "O Brasil não cabe no quintal de ninguém", disse. Horas depois, na mesma tribuna, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou usar força militar na América Latina.
A abertura estava marcada para as 9h no horário local, segundo a agenda oficial do Palácio do Planalto, que registrou ainda um encontro do presidente com o secretário-geral da ONU, António Guterres, antes da sessão. Por tradição diplomática, o Brasil é o primeiro país a falar no Debate Geral, e os Estados Unidos, país-sede, discursam na sequência.
O que Lula disse sobre soberania e eleições
O trecho mais repetido da fala tratou da presença militar estrangeira no continente. "Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável", afirmou o presidente, segundo a Agência Brasil. Em outro momento, foi mais direto: "Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas".
Lula também levou à tribuna a disputa eleitoral. Ele disse que o mundo voltou a presenciar "a ingerência externa em processos eleitorais" e que "a democracia está novamente em xeque". E completou: "Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos ou externos, atentem contra a vontade popular". O presidente falou ainda sobre desinformação, ao afirmar que, "na era da desinformação, os obscurantistas resistem às evidências da ciência".

Por que ele cobrou o Conselho de Segurança
A parte mais dura do discurso foi dirigida à própria organização que o recebia. Lula afirmou que a ONU "está falhando em uma de suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra" e que "sua credibilidade nunca esteve tão baixa". Disse também que o sentimento que o movia naquele dia era "o da indignação".
O alvo foi o direito de veto dos cinco membros permanentes. "Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel", declarou. Para sustentar a cobrança, recorreu à história: lembrou que, em 1946, na primeira sessão da Assembleia-Geral, o Brasil já alertava para o preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto, um vício que, segundo ele, "conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez". A reforma do Conselho é bandeira antiga da diplomacia brasileira, e o tema voltou ao debate quando a ONU encerrou a missão de paz no Líbano depois de quase 50 anos.
Antes dos chefes de Estado, Guterres abriu a sessão dizendo que "nosso futuro será moldado pela forma como enfrentarmos quatro grandes testes de poder": conflitos armados, desigualdade, mudança do clima e inteligência artificial. Sobre as guerras no Oriente Médio, na Ucrânia, no Sudão e em Mianmar, afirmou: "Não estamos diante de crises separadas. Estamos diante de capítulos da mesma história".
O que Trump disse depois
O discurso seguinte trouxe o contraponto. Trump afirmou que "nossas ações na Venezuela provam que os EUA não permitirão mais que ameaças à América ganhem terreno em qualquer parte do Hemisfério Ocidental" e que, "se necessário", os Estados Unidos usarão "nosso poderio militar inigualável para garantir os interesses nacionais vitais". Sobre a Venezuela, disse: "Foi uma guerra, mas talvez seja o maior negócio já realizado. Ao vencedor pertencem os espólios".
O presidente americano chamou os cartéis de droga de "o ISIS do Hemisfério Ocidental" e cobrou o vizinho: "O México deve retomar o controle de seu território das mãos dos inimigos da humanidade". Ele não citou o Brasil nem Lula pelo nome.
O que acompanhar depois do discurso
A viagem de Lula a Nova York inclui reuniões bilaterais paralelas à Assembleia, no mesmo formato da comitiva de 15 ministros que ele levou à Europa em busca de acordos. O Debate Geral segue nos próximos dias, com discursos dos demais chefes de Estado e de governo. Os pronunciamentos na íntegra, em vídeo e em texto, ficam disponíveis no portal das Nações Unidas e na página de discursos da Presidência da República.