Brasil reduz pobreza, mas amplia desigualdade, aponta relatório
Levantamento do Observatório Brasileiro das Desigualdades analisou 48 indicadores: 34 melhoraram, 8 pioraram e 6 ficaram estáveis
O Brasil avançou em 34 dos 48 indicadores acompanhados pelo Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026, divulgado nesta quarta-feira (12), mas a redução da pobreza não foi suficiente para diminuir as distâncias de renda, gênero, raça e território. Oito indicadores pioraram e seis ficaram estáveis.
Os avanços, que representam 71% do total analisado, se concentram em renda média, expansão do mercado de trabalho, redução da pobreza, maior segurança alimentar e ampliação do acesso a serviços básicos. Na saúde, o levantamento aponta queda da desnutrição infantil e da desnutrição em idosos. Na educação, registra recuo do analfabetismo. Na segurança, mostra redução da taxa de homicídios de jovens de 15 a 29 anos.
É a quarta edição do relatório desde 2023. A leitura que os autores fazem do conjunto está na frase que abre a conclusão do documento.
O crescimento econômico beneficiou diferentes grupos sociais, mas não foi suficiente para reduzir as disparidades históricas de renda, gênero, raça e território.
Onde os números pioraram
A diferença salarial entre homens e mulheres se ampliou no período analisado. O relatório também registra agravamento da concentração de renda e mantém no diagnóstico a tributação regressiva, aquela em que quem ganha menos compromete proporção maior da renda com impostos.
O levantamento identifica ainda piora nas condições enfrentadas pela população negra e concentração dos piores indicadores sociais no Norte e no Nordeste. É o mesmo padrão que aparece em séries históricas de renda domiciliar e de acesso a saneamento: a média nacional melhora sem que a distância entre os extremos se reduza na mesma proporção.
Betina Ferraz Barbosa, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do Pnud Brasil, resumiu a limitação do dado agregado.
Os números médios escondem uma realidade mais complexa: os avanços foram reais e, ao mesmo tempo, profundamente desiguais.
Por que a distinção importa
Pobreza e desigualdade medem coisas diferentes. A primeira conta quantas pessoas estão abaixo de uma linha de renda; a segunda mede a distância entre quem está no topo e quem está na base. Um país pode tirar milhões da pobreza por meio de transferência de renda e reajuste do salário mínimo e, ao mesmo tempo, ver a fatia da renda apropriada pelo décimo mais rico crescer.
É o que o relatório descreve. Programas de transferência e a recuperação do emprego elevam o piso, o que aparece nos indicadores de pobreza e de segurança alimentar. Já a concentração no topo depende de outras variáveis: rendimentos do capital, herança, estrutura tributária e acesso a educação de qualidade nas etapas que definem trajetória profissional.
A estrutura tributária citada pelo relatório está no centro de mudanças em curso. A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, cujos efeitos o DistritoNews detalhou em reportagem anterior, é uma das medidas que atuam justamente sobre a progressividade da cobrança.
Por isso a estrutura do relatório separa 48 indicadores em vez de trabalhar com um índice único. O recorte permite ver, por exemplo, que a queda do analfabetismo e a redução dos homicídios entre jovens caminham em uma direção enquanto o hiato salarial de gênero caminha em outra.
- 48 indicadores analisados no relatório
- 34 avançaram, o equivalente a 71% do total
- 8 pioraram, entre eles o hiato salarial de gênero
- 6 ficaram estáveis
- 4ª edição do levantamento desde 2023
O documento é elaborado pelo Observatório Brasileiro das Desigualdades, que reúne organizações da sociedade civil e conta com participação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento no Brasil. Os dados foram divulgados pela Agência Brasil.