Economia

Oxfam vê concentração de riqueza estreitando a representação política

Estudo divulgado em 19 de agosto aponta o Brasil em 4º em desigualdade patrimonial e liga o acúmulo de bens ao acesso ao mandato

A Oxfam Brasil afirma, em estudo divulgado em 19 de agosto, que a concentração de patrimônio no país se converte em desequilíbrio de representação política e reduz o peso da maioria da população nas decisões públicas. O trabalho se chama "Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia".

Os números são da organização, não de órgão oficial. Segundo a Oxfam, o Brasil aparece em quarto lugar entre os países com maior desigualdade patrimonial, posição que a entidade extrai do Global Wealth Report 2026, do banco suíço UBS. No mesmo levantamento, o país registrou 386 mil milionários em dólar em 2025.

Do outro lado dessa conta, a organização estima que 69% dos adultos brasileiros têm patrimônio médio de até R$ 51 mil, o que inclui casa, carro, poupança e qualquer outro bem acumulado ao longo da vida.

A medida usada no estudo é patrimônio, não salário. A diferença importa: a desigualdade de renda compara o que entra por mês, enquanto a de patrimônio compara o estoque de bens já acumulado, que resiste a variações de emprego e costuma se transmitir por herança. Na contagem do UBS, milionário é quem detém patrimônio líquido acima de US$ 1 milhão, critério que inclui imóveis e ativos financeiros descontadas as dívidas.

Do patrimônio ao mandato

O ponto central do estudo é a passagem da renda para o poder. A Oxfam sustenta que quem concentra patrimônio tem mais capacidade de financiar campanha, ocupar espaço na imprensa e influenciar a agenda legislativa, enquanto a maioria disputa em condições piores.

Para sustentar o argumento, o texto usa dois indicadores de representação. Nas eleições municipais de 2024, 13,2% dos municípios brasileiros elegeram prefeitas. Na eleição de 2022, a Câmara dos Deputados foi formada com 82,3% de homens.

A entidade trata os dois dados como sintoma do mesmo processo: a filtragem de quem consegue chegar ao mandato começa antes da urna, na desigualdade de recursos e de tempo disponível para a vida pública.

O que o estudo não é

O documento não se confunde com o relatório que a Oxfam publica em janeiro, na semana do Fórum Econômico Mundial, em Davos, voltado à concentração global de riqueza. Este é um trabalho específico sobre o Brasil e sobre a relação entre patrimônio e participação política, com recorte de gênero e de representação parlamentar.

A publicação entra em um debate que já tem outras medições no país. O Observatório Brasileiro das Desigualdades apontou neste ano queda da pobreza acompanhada de aumento da distância entre o topo e a base da distribuição de renda, como o DistritoNews registrou.

Para Brasília, o tema tem endereço. A capital concentra a estrutura dos três Poderes e a maior parte das decisões que o estudo discute passa pela Esplanada, pelo Congresso e pelos tribunais superiores instalados na cidade.

A Oxfam Brasil integra a confederação internacional Oxfam e atua no país em pesquisa e advocacia sobre desigualdade, tributação e direitos sociais. As conclusões do estudo são da organização e não representam posição de governo ou de instituto oficial de estatística.

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