Pesquisadores reencontram plantas sem registro há mais de 100 anos
Sempre-vivas Paepalanthus magalhaesii e Coracoralina amoena foram localizadas no Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, por equipes da UFMG e da Rede Propagar
Duas espécies de plantas sem registro na natureza havia mais de um século foram reencontradas no Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Rede Propagar. O achado foi divulgado pela Agência Brasil no domingo, 16.
As espécies são a Paepalanthus magalhaesii e a Coracoralina amoena, ambas conhecidas popularmente como sempre-viva ou chuveirinho. A segunda era considerada possivelmente extinta na natureza e só ocorre no Quadrilátero Ferrífero, região de serras no centro de Minas Gerais marcada por solo ferruginoso e vegetação de campo rupestre.
A Paepalanthus magalhaesii foi localizada em quatro pontos: Capanema, Capivari I, Capivari II e Cata Branca, áreas distribuídas entre os municípios de Itabirito, Rio Acima e Ouro Preto. A planta cresce rente ao chão e se assemelha a um pequeno pompom entre as rochas.
Como as plantas sobrevivem no solo de ferro
As duas espécies ocupam ambientes que eliminam a maior parte da flora. São áreas rochosas com camada fina de solo, exposição direta ao sol e pouca água disponível.
"Conseguem sobreviver em condições de temperatura e estresse hídrico que outras plantas não conseguiriam", afirmou Patrícia Favoreto Renci, engenheira agrônoma e gerente de propagação da Rede Propagar, à Agência Brasil.
A busca foi orientada por uma lista de espécies-alvo montada antes do trabalho de campo. "A gente tinha na nossa lista de espécies-alvo não eram vistas há mais de 100 anos", disse Laís Zeferino, doutora em Biologia Vegetal e pesquisadora associada da UFMG.
O levantamento reúne a UFMG, a Rede Propagar, a mineradora Vale e outras universidades e instituições de pesquisa parceiras. A especialista em campo rupestre da Vale, a engenheira florestal Ana Cristina Amoroso, também participa do trabalho.
O que acontece com o material coletado
O reencontro não encerra o trabalho. As amostras seguem para etapas de laboratório antes de qualquer decisão sobre o status de conservação das espécies.
- Sequenciamento genético do material coletado
- Reprodução das plantas em laboratório
- Reintrodução na natureza em etapa futura
- Depósito em coleção de referência para pesquisas posteriores
Espécies classificadas como possivelmente extintas na natureza permanecem nessa condição até que haja registro documentado de população viva. O reencontro é o primeiro passo para a revisão da classificação, que depende de avaliação formal pelos órgãos responsáveis pelas listas de espécies ameaçadas.
As sempre-vivas são plantas da família Eriocaulaceae, com forte concentração de espécies endêmicas no Brasil. Boa parte delas ocorre em campos rupestres da Cadeia do Espinhaço e do Quadrilátero Ferrífero, ambientes que também concentram jazidas de minério de ferro, o que coloca conservação e mineração sobre o mesmo território.
O Quadrilátero Ferrífero abrange municípios da região central de Minas Gerais e é uma das áreas de maior produção mineral do país. A vegetação sobre canga, o solo ferruginoso característico da região, abriga espécies que não ocorrem em nenhum outro lugar.
No Distrito Federal, os campos rupestres também aparecem em áreas de cerrado de altitude, e o GDF mantém operação permanente de combate a incêndios no bioma, que é a principal ameaça à flora nativa na estiagem.