Jornalistas indígenas lançam manual inédito na Câmara dos Deputados
Poranga Marandúa reúne recomendações de mais de 40 povos sobre terminologia, contexto histórico e cobertura de territórios
O primeiro manual de jornalismo indígena do Brasil foi lançado na segunda-feira, 10, na Câmara dos Deputados, em Brasília. Chamado de Poranga Marandúa, que significa boa notícia em nheengatu, o material reúne termos, orientações e princípios de cobertura elaborados a partir da perspectiva dos povos originários.
A publicação é assinada pela Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor) e resulta de trabalho que envolveu representantes de mais de 40 povos, de diferentes biomas do país. A primeira edição foi editada e revisada pela organização indígena Instituto Kaingáng (Inka) e está disponível de graça na internet.
O que o manual traz
O texto combina técnica jornalística e conhecimento tradicional. Entre as recomendações estão orientações para reportagens e entrevistas, uso de terminologia adequada, contextualização histórica e abordagem de temas como território, cultura, educação, saúde, política, meio ambiente e mudanças climáticas.
"Este manual carrega essa diversidade e reafirma nosso compromisso com uma comunicação construída a partir dos nossos territórios, das nossas línguas e dos nossos modos de contar histórias", afirmou Luciene Kaxinawá, coordenadora-geral da Abrinjor.
Comunicadora do Inka, a jornalista Sônia Kaingáng destacou o papel da formação no acesso a espaços profissionais. "Precisamos ressaltar que chegamos aqui por meio da educação", disse. Assessora de comunicação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Samela Sateré Mawé avaliou que o material funciona como porta de entrada para jornalistas indígenas ocuparem redações.
Como acessar
- Publicação: Poranga Marandúa, primeira edição.
- Responsável: Abrinjor, com edição e revisão do Instituto Kaingáng.
- Lançamento: 10 de agosto de 2026, na Câmara dos Deputados.
- Acesso: gratuito, em formato digital divulgado pela articulação.
Terminologia é o ponto de partida
Boa parte das recomendações trata de vocabulário. Termos usados de forma automática em redações carregam imprecisão ou juízo, e o manual propõe alternativas construídas pelos próprios comunicadores indígenas, com atenção à autodenominação de cada povo e ao uso correto de nomes de territórios.
Outro eixo é a contextualização histórica. A orientação é que a cobertura sobre conflitos fundiários, saúde ou educação apresente o processo que levou à situação relatada, em vez de tratar cada episódio como fato isolado, e que ouça lideranças e organizações das comunidades envolvidas.
Por que o lançamento foi em Brasília
A escolha do Congresso Nacional como palco tem peso simbólico e prático. É em Brasília que tramitam as propostas sobre demarcação de terras, licenciamento em áreas indígenas e política de saúde para essas populações, temas que aparecem com frequência na cobertura nacional e que o manual busca qualificar.
A capital também concentra as sedes da Funai, do Ministério dos Povos Indígenas e das principais articulações nacionais, o que faz da cidade o ponto de convergência da agenda indígena no país. Mobilizações como o Acampamento Terra Livre reúnem anualmente milhares de pessoas na Esplanada.
O material chega em um momento de aumento da presença indígena em veículos de comunicação e em cursos de jornalismo. A Abrinjor não informou prazo para uma segunda edição.
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