Ensino integral acelera aprendizado de alunos de baixa renda, diz estudo
Escolas de jornada integral com alunos mais pobres ficaram 15% à frente das parciais no Ideb 2025, segundo levantamento dos institutos Natura e Sonho Grande
As escolas de ensino médio de tempo integral que atendem os alunos mais pobres tiveram desempenho 15% superior ao das escolas de jornada parcial do mesmo perfil socioeconômico no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025. O dado está em estudo divulgado na terça-feira, 18, pelos institutos Natura e Sonho Grande, com base nos resultados do Ideb e do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).
O levantamento cruzou a nota das escolas com o Indicador de Nível Socioeconômico (INSE), que classifica as unidades pela renda e pela escolaridade das famílias atendidas. Entre as escolas dos níveis II e III, os mais baixos da escala, as 1.166 unidades que funcionam em jornada 100% integral ficaram 0,6 ponto à frente das 1.713 escolas parciais.
O efeito aparece também no topo da lista. Das 100 escolas de ensino médio de menor nível socioeconômico com melhor desempenho no Ideb 2025, 77 funcionam em tempo integral.
O que o estudo mediu
A comparação usou as notas do Saeb 2025 em língua portuguesa e matemática, com 214 mil matrículas em escolas urbanas de jornada integral e cerca de 1 milhão de matrículas em jornada parcial. A diferença de proficiência foi convertida em tempo de escolarização, métrica usada para traduzir pontos de prova em anos de aprendizado.
- Em matemática, alunos de escolas 100% integrais de baixo nível socioeconômico somaram 23 pontos a mais que os de jornada parcial, o equivalente a 4,6 anos de aprendizado.
- Em língua portuguesa, a diferença foi de 21 pontos, equivalente a 3,2 anos de escolarização.
- Nas unidades mais vulneráveis, o impacto da jornada ampliada foi quase 70% superior ao observado no conjunto das escolas.
- Entre as escolas com pelo menos 80% de estudantes pretos, pardos e indígenas, a nota média foi 4,9 nas integrais e 4,3 nas parciais.
Segundo o estudo, 74% das escolas 100% integrais atendem maioria de estudantes pretos, pardos e indígenas. Para a superintendente de políticas educacionais do Instituto Natura, Maria Slemenson, o resultado indica que a política tem efeito distributivo quando é executada com foco pedagógico.
"Onde a política é priorizada e bem implementada, o resultado de aprendizagem se descola da renda da família", afirmou Maria Slemenson.
O estudo sustenta que o ganho não vem apenas do número de horas em sala. O tempo adicional é usado para recompor conteúdos que ficaram para trás no ensino fundamental, o que reduz o efeito acumulado das defasagens de aprendizagem sobre o desempenho no ensino médio. Nas palavras da pesquisadora, a estratégia é "avançar no conteúdo e recompor o que ficou para trás".
Onde a jornada ampliada avançou
O país tem 4.235 escolas de ensino médio em jornada 100% integral, o que corresponde a 21% do total da etapa. O Piauí é o único estado com toda a rede estadual de ensino médio em tempo integral, resultado de uma transformação concluída entre 2022 e 2025.
A expansão do tempo integral é meta do Plano Nacional de Educação e tema recorrente no Congresso, onde a discussão tem se concentrado na qualidade da oferta e no custo por aluno.
Os institutos que assinam o levantamento atuam em parceria com redes estaduais na implantação do modelo, informação que consta da própria publicação. O estudo não traz recorte por unidade da federação além do caso do Piauí, e não apresenta dados desagregados para a rede pública do DF.
A discussão sobre a ampliação da jornada já havia chegado ao Senado, que cobrou indicadores de qualidade ao avaliar o avanço das matrículas em tempo integral. A Comissão de Educação apontou que o tempo integral chegou a 26,6% das matrículas no Censo Escolar de 2025, ainda distante da meta prevista em lei.
Os números do Ideb 2025 e do Saeb 2025 usados pelo estudo são os mais recentes disponíveis para a etapa, e o cruzamento com o INSE foi feito pelos próprios institutos, não pelo Inep.