Médica lista os sinais de baixa visão que a família deve observar
Oftalmologista alerta no Congresso Brasileiro de Oftalmologia que o diagnóstico tardio compromete aprendizagem e autonomia
Criança que não acompanha objeto com o olhar, aproxima demais o brinquedo do rosto ou tropeça com frequência pode ter baixa visão, e não apenas dificuldade passageira. O alerta é da oftalmologista Maria de Fátima Neri, feita nesta sexta-feira (11) durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, em Salvador.
Baixa visão é a perda visual que não se corrige totalmente com óculos, lente de contato ou cirurgia, mas que deixa resíduo visual aproveitável. O diagnóstico tardio custa caro porque a visão é o canal por onde a criança pequena aprende quase tudo.
"A baixa visão pode comprometer a percepção visual, a exploração do ambiente, o desenvolvimento motor, a aprendizagem, a comunicação, a autonomia e a participação dessa criança no mundo", afirmou a médica.
Os sinais que a família pode observar em casa
Segundo a especialista, o comportamento diário entrega mais do que qualquer suspeita isolada. Merecem avaliação:
- a criança não acompanha objetos com o olhar;
- não fixa os olhos ou mantém pouca fixação;
- aproxima excessivamente objetos do rosto;
- esbarra ou tropeça com frequência;
- tem dificuldade em ambientes pouco iluminados;
- apresenta fotofobia ou procura luz de forma intensa;
- tem dificuldade para reconhecer pessoas e objetos;
- mostra atraso no desenvolvimento sem causa definida.
Nenhum desses sinais fecha diagnóstico sozinho. O que eles indicam é a hora de procurar avaliação oftalmológica.
O que a avaliação procura
Maria de Fátima Neri afirma que o exame não se limita a medir quanto a criança enxerga, e sim o que ela faz com o que enxerga.
"Precisamos avaliar e entender o que a criança faz com o resíduo visual que tem", disse a oftalmologista.
A avaliação também não isola o olho do resto. "O desenvolvimento visual está relacionado ao visual, mas também ao motor, ao cognitivo, à linguagem e à interação", completou a médica. A leitura funcional é o que orienta a prescrição de recurso óptico, a adaptação da escola e a estimulação precoce.
Confirmado o diagnóstico, o acompanhamento não termina no consultório. O tratamento combina recurso óptico, como lupa e telelupa, adaptação do material escolar e estimulação visual precoce, com reavaliações à medida que a criança cresce. Quanto mais cedo começa, maior o ganho funcional, porque o cérebro infantil ainda está organizando a forma de usar a informação visual que recebe.
A primeira barreira já é obrigatória por lei
A porta de entrada da triagem visual está prevista em lei desde 2010. A Lei 12.303 obriga hospitais e maternidades a realizar gratuitamente o exame de reflexo vermelho, o teste do olhinho, em todo recém-nascido antes da alta. O teste detecta alterações como catarata congênita e glaucoma, condições que estão entre as causas de baixa visão na infância.
O teste do olhinho, porém, não cobre tudo. Parte das causas aparece depois, e é aí que a observação da família e a avaliação em idade pré-escolar entram. Vale a mesma regra do congresso deste ano, que também discutiu o impacto do uso de tela na visão das crianças, tema tratado na reportagem sobre a redução do piscar e o olho seco infantil.
No Sistema Único de Saúde, o caminho começa na unidade básica de saúde, que faz a triagem e encaminha ao especialista. No Distrito Federal, o encaminhamento para oftalmologia pediátrica é feito pela regulação da Secretaria de Saúde a partir dessa consulta inicial.