Segurança

PCDF investiga mercado do Riacho Fundo II por furto de energia

Operação Alta Voltagem apura ligação clandestina após dívida de R$ 90 mil; gerador do comércio era acionado apenas em fiscalizações

Neste texto3 tópicos
  1. Medidor "reserva" e gerador de fachada
  2. Por que isso importa para quem mora no DF
  3. Investigação segue na 29ª DP

Um supermercado do Riacho Fundo II virou alvo da Operação Alta Voltagem, deflagrada na sexta-feira (17) pela 29ª Delegacia de Polícia, sob suspeita de manter ligação clandestina de energia depois de acumular dívida acima de R$ 90 mil com a concessionária.

A denúncia partiu de dentro do próprio negócio: a dona do imóvel onde o mercado funciona procurou a delegacia ao perceber irregularidades no fornecimento de energia do ponto comercial.

O estabelecimento é tocado há cerca de cinco anos por um casal, que administra o local por meio de uma empresa de alimentos, segundo apurou o Correio Braziliense.

Medidor "reserva" e gerador de fachada

A investigação descreve um esquema montado em etapas para driblar o corte de fornecimento:

  • Com a dívida acima de R$ 90 mil, a concessionária desligou a unidade consumidora original do mercado;
  • Pouco antes do corte, os investigados solicitaram um segundo medidor, justificado como reserva "para eventual necessidade";
  • Cortada a ligação principal, o medidor extra passou a sustentar toda a operação do supermercado;
  • Quando a proprietária retirou esse segundo medidor, o comércio seguiu funcionando na base do "gato", com ligação direta na rede.

Relatos colhidos pelos investigadores indicam ainda que o gerador próprio do mercado tinha função de disfarce: só era ligado quando havia fiscalização no local.

Os investigados terão assegurados o direito ao contraditório e à ampla defesa, ressaltou a Polícia Civil em nota.

Por que isso importa para quem mora no DF

Furto de energia não é prejuízo só da distribuidora. As perdas com ligações clandestinas entram no cálculo tarifário e são diluídas na conta de luz de quem paga em dia, em todas as regiões administrativas. Instalações improvisadas também elevam o risco de incêndio e de choque elétrico em áreas comerciais movimentadas.

O fenômeno tem escala conhecida na capital. Balanço da Neoenergia sobre os nove primeiros meses de 2022 apontou 110 milhões de kWh recuperados de ligações irregulares no DF, o bastante para manter Ceilândia, Taguatinga e Brazlândia abastecidas por um mês inteiro.

No mesmo levantamento, Ceilândia liderava os flagrantes, com 1.990 casos, seguida por Taguatinga (1.739), Samambaia (1.014) e Gama (816). Comércios são alvo frequente das operações da distribuidora: bares, padarias e pizzarias já devolveram mais de 1,7 milhão de kWh em ações de fiscalização batizadas de Happy Hour e Massa Fresca.

O setor de supermercados já esteve no centro de uma megaoperação. Em outubro de 2023, a Neoenergia e a Corpatri, unidade da PCDF que mira crimes contra o patrimônio, encontraram medidores fraudados em 8 lojas de uma mesma rede, em Santa Maria, Taguatinga, Ceilândia, Gama e Recanto das Emas. Houve irregularidade em todas as unidades fiscalizadas, e os responsáveis foram levados à delegacia.

Quem é flagrado paga o consumo estimado de forma retroativa, além de taxas de vistoria e religação, e ainda responde na esfera criminal. O artigo 155 do Código Penal prevê reclusão que pode chegar a 8 anos quando o furto é qualificado por fraude.

No Código Penal, energia elétrica é equiparada a coisa móvel: desviar da rede configura furto, e a fraude usada para encobrir o desvio pode agravar a situação dos responsáveis. Neste ano, o Congresso já endureceu punições para crimes patrimoniais, como mostrou o DistritoNews na matéria sobre a nova lei que eleva penas de furto e roubo.

Investigação segue na 29ª DP

O inquérito continua na delegacia do Riacho Fundo II. O foco agora é medir a extensão do prejuízo causado pelo consumo irregular ao longo do período de ligação clandestina e formalizar a responsabilização dos envolvidos.

Problemas na rede elétrica pública, como postes apagados ou fiação exposta, têm canal separado de atendimento no DF, como o DistritoNews detalhou no guia sobre a responsabilidade da concessionária pela iluminação pública. Já suspeitas de furto de energia podem ser denunciadas em qualquer delegacia ou pelo 197 da PCDF, sem necessidade de identificação.