Sobrado no Recanto das Emas lavou R$ 304 milhões da farra do INSS
PF aponta empresas de fachada em salas de 20 m² ligadas à Conafer e à AAB; dinheiro desviado de aposentados passou por pelo menos dez CNPJs abertos no mesmo endereço
Um sobrado discreto no Recanto das Emas abrigou o caixa paralelo da farra do INSS. Empresas registradas na parte superior do imóvel lavaram mais de R$ 304 milhões desviados de aposentados, segundo relatório da Polícia Federal revelado pelo Metrópoles no sábado (18).
Os recursos saíram da Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores (Conafer), apontada pela PF como a maior beneficiária dos descontos associativos aplicados sem autorização. A entidade teria lucrado R$ 708 milhões com o esquema, que causou prejuízo estimado de R$ 6 bilhões aos beneficiários em todo o país.
Dez CNPJs no mesmo endereço da RA
Pelo menos dez empresas foram abertas no endereço, em plena área residencial do Recanto das Emas. No papel, os negócios iam de comércio varejista e aluguel de carros a apoio à agricultura. Na prática, os investigadores encontraram salas pequenas e aparentemente vazias.
"O fato de empresas funcionarem em salas modestas de aproximadamente 20 m², muitas vezes parecendo desocupadas, constitui prova robusta de que se tratavam de empresas de fachada para a ocultação da origem ilícita dos fundos", registra o relatório da PF citado pela reportagem.
Os CNPJs estão em nome de Cícero Marcelino Santos e Samuel Chrisostomo do Bonfim Júnior, ligados à Conafer, e de Lucineide dos Santos Oliveira, vinculada à Associação de Aposentados do Brasil (AAB). Lucineide é dona de uma igreja evangélica no próprio Recanto das Emas e já aparecia na frente da investigação que resultou no indiciamento de donos de igrejas do DF pela PF.
Propina anotada em planilha
A PF localizou planilhas com registros de pagamento de propina atribuídas à Conafer. Os valores anotados coincidem com transferências bancárias rastreadas na investigação.
Entre os destinatários apontados estão o ex-procurador-geral do INSS Virgílio Antônio Ribeiro, que teria recebido ao menos R$ 6,5 milhões, e o ex-diretor do instituto André Fidelis, com cerca de R$ 3,4 milhões, segundo os investigadores.
O que acontece agora
O inquérito do núcleo da Conafer foi concluído em 14 de julho com 48 indiciados por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O caso está no Supremo Tribunal Federal, e a Procuradoria-Geral da República decide se transforma o indiciamento em denúncia.
Para o morador do DF, o desdobramento tem endereço conhecido: além do sobrado no Recanto das Emas, a apuração já alcançou igrejas e associações da região. Aposentados que tiveram descontos associativos não autorizados podem pedir ressarcimento pelo aplicativo Meu INSS ou pela central 135. Quem depende do crédito consignado do INSS, que passou por mudanças recentes, deve conferir o extrato de benefício antes de contratar novo empréstimo.