Brasil

Estudo ouve adolescentes: 71% querem internet diferente, não o fim dela

Pesquisa Adolescência Sem Filtro entrevistou mais de 500 jovens de 13 a 18 anos e teve adolescentes como entrevistadores na etapa qualitativa

Sete em cada dez adolescentes brasileiros acham que a internet deve continuar existindo, mas precisa mudar. O dado é do estudo Adolescência Sem Filtro, divulgado nesta quarta-feira (12), Dia Nacional da Juventude, com mais de 500 entrevistados de 13 a 18 anos. Outros 9% responderam que a internet deveria deixar de existir.

A pesquisa foi encomendada pelo Instituto Alana e realizada pela Agência Koga. O desenho metodológico é o traço mais incomum do trabalho: na etapa qualitativa, os entrevistadores eram oito adolescentes de 13 a 18 anos, cada um responsável por oito a dez entrevistas. A escolha respondia a uma queixa que o próprio estudo captou, a de que adultos não costumam ouvir os mais novos sobre o assunto.

Metade dos entrevistados reconhece passar mais tempo on-line do que gostaria. Ao mesmo tempo, 63% dizem sentir felicidade ao se conectar. As duas respostas convivem no mesmo grupo e ajudam a explicar por que a rejeição total à internet aparece em parcela pequena da amostra.

O que os adolescentes cobram

Quando o estudo pergunta de quem é a responsabilidade por melhorar o ambiente digital, 49% apontam as plataformas. Outros 43% pedem mais controle por parte delas. A resposta desloca o problema do comportamento individual para o desenho dos serviços, que é justamente o eixo das regulações em discussão no Congresso e no exterior.

Os números sobre dependência são consistentes com essa leitura. Entre os entrevistados, 41% se sentem mais dependentes do celular e 39% avaliam que perderam tempo de estudo por causa da internet. Na prática cotidiana, 44% relatam bloquear contas ou conteúdos que consideram nocivos e 32% dizem fazer pausas ao longo do dia.

Gabriela Barbosa, especialista em Planejamento Estratégico de Comunicação do Instituto Alana, avalia que o resultado contraria a ideia de que adolescentes não percebem os efeitos do que consomem.

Adolescentes têm consciência do quanto a internet pode ser negativa e senso crítico apurado.

Por que o dado chega agora

A divulgação coincide com um momento de decisões sobre plataformas digitais no Brasil. O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente criou obrigações específicas para serviços acessíveis a menores de 18 anos, entre elas mecanismos de verificação de idade e de supervisão parental. É com base nesse conjunto de deveres que órgãos de fiscalização têm cobrado ajustes das empresas.

No mesmo dia da divulgação do estudo, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados determinou que a plataforma Discord suspendesse as transmissões ao vivo no país em até três dias úteis, medida preventiva ligada à proteção de crianças e adolescentes.

No Congresso, o PL 2.338/2023, que cria o marco legal da inteligência artificial, seguiu em debate no Conselho de Comunicação Social no início do mês, como noticiou o DistritoNews. Ele e as propostas sobre responsabilidade das plataformas seguem em tramitação. Nenhuma delas foi construída a partir de consulta direta a adolescentes, o que dá ao levantamento do Alana a função de suprir uma lacuna de dado primário sobre a percepção desse público.

  • 71% acham que a internet deve existir, com mudanças
  • 9% acham que ela deveria acabar
  • 63% sentem felicidade ao se conectar
  • 50% passam mais tempo on-line do que gostariam
  • 49% atribuem às plataformas a responsabilidade pela melhoria
  • 41% se sentem mais dependentes do celular

O estudo foi divulgado pela Agência Brasil. A amostra reúne mais de 500 adolescentes e jovens de 13 a 18 anos.

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