Violencia muda a rotina de 98% das mulheres brasileiras, diz pesquisa
Levantamento dos institutos Patricia Galvao e Locomotiva ouviu 1.500 pessoas em abril; 45% ja abriram mao de trabalho ou estudo por medo
Quase todas as mulheres brasileiras mudam alguma coisa na propria rotina para nao virar vitima de violencia. A pesquisa Seguranca das mulheres: percepcao da sociedade brasileira sobre a violencia, divulgada nesta semana pelos institutos Patricia Galvao e Locomotiva, mostra que 98% delas adotam ao menos uma estrategia de protecao no dia a dia, do trajeto que fazem ate o horario em que aceitam sair de casa.
O levantamento ouviu 1.500 pessoas de todas as regioes do pais, com 16 anos ou mais, em abril de 2026, por meio de entrevistas digitais autoaplicadas. O estudo teve apoio da Uber e foi divulgado pela Agencia Brasil.
O dado que sustenta o numero principal e a percepcao de risco. Entre as entrevistadas, 94% dizem se sentir inseguras diante da violencia no cotidiano, contra 84% dos homens. E 78% relatam ja ter sofrido pelo menos um tipo de violencia ao longo da vida.
A diferenca entre os sexos aparece em todos os recortes de percepcao. Se 94% das mulheres se dizem inseguras, entre os homens o percentual cai para 84%. O estudo mede percepcao e comportamento declarado, nao ocorrencias registradas em delegacia, e por isso capta um efeito que a estatistica criminal nao alcanca: o da violencia que nao chegou a acontecer, mas ja organizou a agenda de quem teme sofre-la.
O que elas deixam de fazer
As estrategias mapeadas pelos institutos sao concretas e cobrem desde o uso do celular na rua ate a escolha do meio de transporte. Entre as mulheres ouvidas:
- 80% evitam usar aplicativo de banco no celular enquanto estao na rua;
- 77% compartilham a localizacao com pessoas de confianca;
- 69% mudam os trajetos de costume;
- 66% chamam carro ou moto por aplicativo para nao andar a pe;
- 66% pedem que alguem as acompanhe ao sair de casa.
O efeito nao para no deslocamento. Segundo a pesquisa, 62% das mulheres ja mudaram habitos de lazer por causa do medo e 45% afirmam ter aberto mao de oportunidades de trabalho ou de estudo pelo mesmo motivo. E o ponto em que a inseguranca deixa de ser uma questao de rota e passa a ser uma questao de renda e de escolaridade.
Onde denunciar no DF
No Distrito Federal, a denuncia pode ser feita pelo 190, da Policia Militar, em caso de emergencia, e pelo 180, a Central de Atendimento a Mulher, que funciona 24 horas, e gratuita e recebe relatos de qualquer lugar do pais. Registros tambem podem ser feitos nas Delegacias Especiais de Atendimento a Mulher (Deam) e na Delegacia Eletronica da Policia Civil do DF.
A medida protetiva de urgencia, prevista na Lei Maria da Penha, pode ser pedida na delegacia no momento do registro, sem necessidade de advogado, e vai a analise do Judiciario. O DF tambem mantem politica propria de amparo a familias atingidas por feminicidio: o programa Acolher Eles e Elas ja atendeu 199 filhos de vitimas, segundo a Secretaria da Mulher.
O amparo legal a quem denuncia esta na Lei Maria da Penha, a Lei 11.340, de 2006, que criou as medidas protetivas de urgencia e os mecanismos de atendimento especializado. O pedido pode incluir afastamento do agressor do lar, proibicao de contato e restricao de aproximacao da vitima, dos filhos e de testemunhas.
Os institutos Patricia Galvao e Locomotiva nao divulgaram recorte da pesquisa por unidade da Federacao. Os percentuais citados sao nacionais.