Pediatras alertam contra canetas emagrecedoras em crianças
Sociedade Brasileira de Pediatria lista riscos como déficit de crescimento e transtornos alimentares e pede fim do apelido popular
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou nota de alerta contra o uso das chamadas canetas emagrecedoras por crianças e adolescentes, e pediu que a expressão popular seja substituída por "medicamentos para tratar a obesidade". O documento foi divulgado nesta semana e responde à procura crescente por esses injetáveis com finalidade estética.
"As chamadas canetas emagrecedoras não devem ser utilizadas por adolescentes com peso adequado", diz a entidade. A recomendação vale mesmo quando existe diagnóstico de obesidade: "Mesmo diante do diagnóstico dessas doenças, a prescrição não é automática".
Quais medicamentos estão no alerta
A nota trata dos análogos de GLP-1 e dos medicamentos de ação dupla que se popularizaram nos últimos anos. Entre os citados nominalmente estão o Mounjaro, à base de tirzepatida, e o Saxenda, à base de liraglutida, além da semaglutida.
São remédios de aplicação subcutânea, desenvolvidos originalmente para diabetes tipo 2 e depois autorizados para tratamento da obesidade em adultos, sempre com prescrição e acompanhamento. O que a SBP contesta não é a existência do tratamento, e sim o uso fora de indicação médica em uma faixa etária que ainda está em crescimento.
Os riscos listados pela entidade
A nota enumera efeitos que preocupam especialmente em crianças e adolescentes:
- déficit de crescimento e de desenvolvimento;
- desidratação e distúrbios eletrolíticos;
- perda de massa muscular;
- pancreatite aguda;
- problemas na vesícula, incluindo colelitíase;
- hipoglicemia;
- transtornos alimentares, como anorexia e bulimia;
- ansiedade e depressão.
O ponto mais delicado, segundo a SBP, é o gatilho psíquico. "O uso com finalidade estética também pode servir de gatilho para transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, além de ansiedade", registra o texto.
A perda de massa muscular tem peso diferente nessa faixa etária. Em um organismo em formação, a restrição alimentar acelerada pode comprometer ganho de estatura e mineralização óssea, efeitos que não se recuperam apenas com a interrupção do medicamento.
A entidade também insiste na mudança de vocabulário. Ao pedir que se abandone o apelido "caneta emagrecedora", a SBP quer desfazer a ideia de produto de consumo estético e devolver o remédio à categoria de tratamento médico, com indicação, dose e acompanhamento definidos por profissional.
A recomendação chega em um momento de banalização do tratamento. Os injetáveis passaram a circular em conversas de rede social e em anúncios como atalho para perda de peso rápida, sem menção a indicação clínica, dose ou acompanhamento. Parte da procura vem de adolescentes com peso dentro da faixa adequada, exatamente o grupo que a nota exclui de forma expressa.
Há ainda o problema da origem do produto. Frascos e canetas vendidos fora da rede farmacêutica regular, sem registro sanitário ou com procedência desconhecida, não têm garantia de conteúdo, dose ou conservação, e ampliam o risco de efeitos adversos graves em quem faz uso sem prescrição.
O tema já vinha sendo acompanhado pelo órgão regulador. A Anvisa criou grupo de trabalho para tratar do uso seguro dessas canetas, com foco em farmacovigilância, e no ano passou a agir contra produtos vendidos de forma irregular com promessa de emagrecimento.
Para pais e responsáveis, a orientação prática da SBP é procurar o pediatra antes de qualquer decisão. Obesidade infantil tem diagnóstico, classificação e linhas de tratamento próprias, que começam por alimentação, atividade física e avaliação de comorbidades. O medicamento, quando entra, entra depois disso, e não no lugar disso.