Brasil

Devastação da Amazônia ameaça a maior máquina de chuva do mundo

Painel Científico pela Amazônia alerta que o bioma se aproxima do ponto de não retorno; seca de 2024 atingiu 88% da bacia

A devastação da Amazônia pode interromper o maior sistema natural de produção de chuva do planeta, alertaram pesquisadoras do Painel Científico pela Amazônia, grupo que reúne mais de 350 cientistas. O aviso foi divulgado pela Agência Brasil em 12 de setembro.

O sistema funciona como um circuito fechado. A umidade que vem do oceano vira chuva sobre a floresta, é absorvida pelas árvores e devolvida à atmosfera em forma de vapor. O vento leva esse vapor pelo continente e o transforma em chuva em outras regiões.

Uma árvore adulta da Amazônia libera de 200 a 300 litros de água por dia. "Imaginem 400 bilhões delas trabalhando juntas todos os dias. Se pudéssemos tornar essa umidade possível, veríamos rios gigantes voando no céu", disse a pesquisadora Julia Valentim Tavares.

O que já aconteceu com a floresta

A seca de 2024, a mais severa já registrada na região, atingiu 88% da bacia amazônica. O último El Niño alcançou 38% das áreas habitadas. Nesses períodos, segundo a pesquisadora, a floresta sofre mortalidade por falha hidráulica ou simplesmente para de crescer, o que reduz a quantidade de vapor devolvida à atmosfera.

O efeito não fica dentro do bioma. A fumaça dos incêndios de 2024 se espalhou pelo país e chegou ao Sudeste, e há evidências, segundo os cientistas, de que o desmatamento na Amazônia brasileira resulta em menos chuva em outras regiões do Brasil e na Bolívia.

"A Amazônia já está se aproximando do ponto de não retorno, e a perda total dessa conectividade seria catastrófica para o mundo todo", afirmou Marielos Peñaclaros, copresidente do Painel Científico pela Amazônia.

Para as pesquisadoras, o bioma não deve ser tratado como um bloco homogêneo de floresta. "A Amazônia é um mosaico vivo de ecossistemas terrestres e aquáticos interconectados entre si", disse Marielos. É essa conexão entre rios, várzeas e áreas de floresta que sustenta o transporte de umidade.

O que os dados oficiais mostram

Os números de desmatamento vêm em queda no período recente. Em agosto, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informou que a devastação caiu 36,87% no acumulado de 12 meses, o menor patamar desde 2016. Em maio, a redução medida pelo sistema Deter havia sido de 61,4% na comparação mensal.

A queda no corte raso, porém, não desfaz o passivo acumulado nem neutraliza os outros vetores citados pelos cientistas, como queimadas, mineração e as próprias mudanças climáticas, que agem sobre a floresta mesmo onde a árvore continua de pé.

Por que isso interessa a quem mora no Centro-Oeste

O vapor que sai da floresta é dispersado pelos ventos por diferentes regiões do continente, conforme a descrição apresentada pelas pesquisadoras, e parte desse fluxo alcança o Centro-Oeste, onde fica o Distrito Federal. É a mesma conexão que, segundo elas, faz o desmatamento na Amazônia aparecer como menos chuva longe do bioma.

No Distrito Federal, o regime de chuva é concentrado entre outubro e março, período que responde por quase toda a recarga dos reservatórios que abastecem a capital. Qualquer alteração no volume de umidade que chega ao planalto aparece primeiro no nível desses reservatórios e, depois, na conta de quem depende deles.

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