PF diz que ex-chefe do BC recebia R$ 500 mil por mês de Vorcaro
Relatório de 164 páginas teve o sigilo levantado pelo ministro André Mendonça; os dois servidores citados negam o vazamento
A Polícia Federal apontou em relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) que o ex-chefe do Departamento de Supervisão do Banco Central Belline Santana recebeu pagamentos recorrentes de R$ 500 mil em troca do repasse de informações sigilosas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O documento teve o sigilo levantado na noite de quinta-feira (10) pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo.
Ao menos um dos pagamentos chegou a R$ 760 mil, segundo mensagens trocadas entre o advogado e empresário Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro e apontado como seu operador financeiro, e o próprio Vorcaro, dono do antigo Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro do ano passado.
O que o relatório da PF descreve
O relatório tem 164 páginas e reúne mensagens que a PF diz terem sido trocadas entre Vorcaro e dois servidores do Banco Central. Além de Belline Santana, a corporação aponta vantagens indevidas pagas a Paulo Sérgio Neves de Souza, gerente adjunto do Departamento de Supervisão do BC.
No caso de Souza, a PF cita o pagamento de uma viagem à Disney, nos Estados Unidos, e a "aquisição de maneira atípica" de um imóvel rural do servidor. Belline Santana teria sido beneficiado ainda com "almoço, jantar e guia em Paris", tudo custeado por Vorcaro, segundo o documento.
Para a PF, os dois vazaram informações internas do BC ligadas à Operação Compliance Zero, que apura fraudes financeiras bilionárias relacionadas ao Master. Segundo o relatório, Santana e Souza atuaram como consultores de Vorcaro, promovendo "alinhamento de estratégias e revisão de documentos, bem como reuniões privadas, inclusive na residência do investigado".
Em uma das mensagens citadas, Paulo Sérgio Souza encaminha ao ex-banqueiro a portaria com a própria nomeação para o cargo no Departamento de Supervisão. Em outro trecho, ele diz ser "prioridade absoluta" se encontrar com Vorcaro para discutir interesses do Master.
O que dizem os investigados
Afastados de suas funções, Belline Santana e Paulo Sérgio Souza negam ter vazado informações internas do Banco Central a Daniel Vorcaro. Os dois alegam ter como provar que as despesas com viagens e outras vantagens foram pagas do próprio bolso.
A ligação entre os dois servidores e o ex-banqueiro já era conhecida desde a prisão preventiva de Vorcaro. A retirada do sigilo sobre o relatório revelou os detalhes sobre a suposta remuneração que eles recebiam.
A Agência Brasil informou que busca contato com as defesas dos citados para novo posicionamento.
Por que o caso corre em Brasília
O sigilo da maior parte dos documentos da Compliance Zero foi levantado por André Mendonça após requerimento do presidente do STF, ministro Edson Fachin. O inquérito tramita no Supremo, em Brasília, e envolve o órgão regulador do sistema financeiro nacional, que tem sede na capital.
O Departamento de Supervisão é a área do Banco Central responsável por fiscalizar instituições financeiras, exatamente a função que estaria sendo contornada pelos repasses descritos no relatório.
Em agosto, a PF já havia pedido mais 60 dias de prazo para concluir outra frente da investigação, que ampliou a apuração sobre diretores do BRB no negócio com o Banco Master.