Endividamento das famílias vai a 82% em julho e bate recorde da série
Pesquisa da CNC mostra alta de 0,4 ponto porcentual sobre junho. Entre quem ganha até três salários mínimos, o índice chega a 84,9%
O porcentual de famílias brasileiras com algum tipo de dívida chegou a 82% em julho de 2026, o maior da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada nesta quinta-feira (6/8) pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O índice era de 81,6% em junho, alta de 0,4 ponto porcentual em um mês.
A pesquisa considera endividada a família que tem alguma conta a vencer, e não apenas a que está em atraso. Entram na conta cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e de casa.
Quem está mais exposto
O recorte por renda mostra a diferença entre quem ganha pouco e quem ganha mais. Entre as famílias com renda de até três salários mínimos, 84,9% estão endividadas e 38,5% têm contas em atraso. Na faixa acima de dez salários mínimos, o endividamento cai para 72% e o atraso, para 15,1%.
A distância entre os dois grupos é o dado mais relevante do levantamento: a diferença de mais de 23 pontos porcentuais no atraso mostra que o problema não é apenas ter dívida, e sim a capacidade de honrá-la dentro do orçamento.
Inadimplência recua de leve
O porcentual de famílias com contas ou dívidas em atraso ficou em 29,8% em julho, ante 29,9% em junho. A queda é pequena e mantém o indicador praticamente estável, em um patamar em que quase um terço dos lares tem pelo menos um compromisso vencido.
Outro recorte da Peic mostra a percepção do próprio consumidor sobre o tamanho do problema: 17,1% se declaram muito endividados.
- Endividadas: 82% das famílias, ante 81,6% em junho
- Com contas em atraso: 29,8%, ante 29,9% em junho
- Até 3 salários mínimos: 84,9% endividadas e 38,5% em atraso
- Acima de 10 salários mínimos: 72% endividadas e 15,1% em atraso
- Se consideram muito endividadas: 17,1%
O que o dado sinaliza para o comércio
A Peic é acompanhada pelo varejo porque antecipa o comportamento de consumo. Família com orçamento comprometido tende a adiar compra parcelada, encurtar prazo e trocar marca por preço, movimento que aparece nas vendas do semestre seguinte.
Vale separar os dois indicadores, que costumam ser confundidos. O endividamento mede quem tem compromisso a pagar, situação que, isoladamente, não é sinal de crise: quem financia imóvel ou carro entra nessa conta. A inadimplência mede quem já não conseguiu pagar. É a distância entre os dois números que mostra o tamanho da folga do orçamento, e ela vem se estreitando na faixa de renda mais baixa.
O recorde de julho também precisa ser lido junto do custo do crédito. Com a Selic no patamar atual, o refinanciamento de dívida sai mais caro, o que prolonga o tempo que a família leva para sair do vermelho mesmo quando a renda melhora. Modalidades de juro alto, como cartão rotativo e cheque especial, são as que mais pesam nesse alongamento.
O levantamento é mensal e feito pela CNC com consumidores das capitais e do interior. Os números de julho são os mais recentes divulgados pela entidade, e a próxima leitura, referente a agosto, sai no mês que vem.
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