Saude

Diagnóstico tardio reduz a chance de cura do câncer de pulmão

Levantamento com 14.145 diagnósticos do SUS mostra que 89,6% dos pacientes descobriram a doença em estágio 3 ou 4, quando o tratamento deixa de ser curativo

Quase nove em cada dez pacientes com câncer de pulmão atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) descobrem a doença quando ela já não tem chance real de cura. O dado é de um levantamento da plataforma Data Câncer 360º, do Instituto Lado a Lado pela Vida, divulgado em 6 de agosto e que analisou 14.145 diagnósticos registrados na rede pública em 2023.

Do total analisado, 7.267 pacientes, ou 89,6% dos casos com estadiamento informado, chegaram ao serviço de saúde em estágio 3 ou 4. Foram 2.015 pessoas no estágio 3 e 5.252 no estágio 4, quando o tumor já se espalhou. Apenas 698 pacientes, os 10,4% restantes, tiveram a doença identificada nas fases iniciais: 307 no estágio 1 e 391 no estágio 2.

O quadro brasileiro acompanha o mundial. Entre 70% e 80% dos cânceres de pulmão no planeta são descobertos em fase avançada ou com metástase. Quando o tumor é encontrado no início, a probabilidade de cura chega a 94%.

O que os números do Inca mostram

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima o surgimento de 35.380 novos casos de câncer de pulmão por ano no triênio de 2026 a 2028. Em 2024, a doença matou 32.555 pessoas no país, o que a mantém entre os tumores mais letais do Brasil.

O tabagismo segue como a principal causa isolada e responde por cerca de 85% dos casos. Poluição atmosférica, exposição ocupacional a agentes químicos, predisposição genética e doenças pulmonares crônicas anteriores completam a lista de fatores que exigem investigação clínica, mesmo em quem nunca fumou.

O levantamento também expôs uma falha de registro que atrapalha o planejamento da rede pública. Além dos casos classificados, 3.857 registros aparecem com estadiamento "ignorado" e outros 2.100 como "não se aplica". Em 40% dos prontuários analisados não havia informação sobre o tamanho do tumor ou a presença de metástase.

A tomografia que já está disponível

O oncologista Igor Morbeck, membro do comitê científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, aponta que o exame capaz de antecipar o diagnóstico não depende de nova tecnologia nem de compra de equipamento.

"Essa tomografia anual está disponível no SUS. É totalmente possível fazer tomografia", afirmou o oncologista.

Segundo ele, o problema está na porta de entrada. Como o câncer de pulmão é silencioso nas primeiras fases, o paciente costuma procurar atendimento só quando surgem tosse persistente, falta de ar, dor no peito, rouquidão ou perda de peso sem explicação. Nesse ponto, o tratamento muda de patamar.

"É muito diferente um paciente que precisa de uma cirurgia", disse Morbeck, ao comparar o custo e o desfecho de um caso inicial com o de um caso metastático.

O rastreamento por tomografia de baixa dose é indicado principalmente para fumantes e ex-fumantes de longa data, grupo que concentra a maior parte dos diagnósticos. A recomendação prática para quem está nessa faixa é levar o histórico de tabagismo à consulta de rotina na unidade básica de saúde e pedir a avaliação de risco, em vez de esperar o sintoma aparecer.

O que fazer diante de um sintoma persistente

  • Tosse que dura mais de três semanas, com ou sem sangue, exige avaliação médica.
  • Falta de ar progressiva, dor no peito e rouquidão sem causa aparente entram na mesma lista.
  • Fumantes e ex-fumantes acima de 50 anos devem informar carga tabágica ao médico da atenção básica.
  • O encaminhamento para tomografia parte da avaliação de risco feita na unidade de saúde.

A doença também está no centro de disputas recentes sobre acesso a tratamento na rede pública, tema que o DistritoNews acompanha na cobertura sobre a política nacional de vacinas e terapias contra o câncer no SUS.

Os dados do Data Câncer 360º foram divulgados pela Agência Brasil em 6 de agosto de 2026.

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