Segurança

Operação Azzardo: PCDF mira rede de bets ilegais e Justiça bloqueia até R$ 3,48 bilhões

A PCDF cumpre 50 mandados contra rede de bets ilegais. Empresas de fachada em Ceilândia e Sobradinho e fintech movimentaram R$ 1 bilhão, diz a investigação.

Neste texto3 tópicos
  1. Como o esquema funcionava
  2. A fintech e as licenças estaduais
  3. O que a Justiça determinou

A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) deflagrou na manhã desta quinta-feira, 5, a Operação Azzardo contra uma rede suspeita de explorar apostas ilegais de quota fixa e lavar dinheiro. A Justiça determinou o bloqueio de até R$ 3,483 bilhões dos investigados. As informações foram divulgadas pelo Metrópoles, com base em dados da investigação.

A ação, conduzida pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco/Decor), mobilizou cerca de 200 policiais civis para cumprir 50 mandados de busca e apreensão. No Distrito Federal foram 24. Os outros 26 foram cumpridos em São Paulo, Goiás, Paraná, Ceará e Rio Grande do Norte.

Como o esquema funcionava

A apuração começou há cinco meses, a partir de comunicações da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF), que identificou plataformas de bets operando sem autorização federal. Nas simulações feitas pelos técnicos da SPA, o Pix cobrado pelos sites ia parar em empresas cuja atividade declarada não tinha relação com jogos.

Ao ir aos endereços cadastrados, os policiais encontraram imóveis vazios, placas de "aluga-se" e comércios sem ligação com tecnologia. Em um único lote de Ceilândia, dez empresas indicavam o mesmo telefone corporativo. Duas das pessoas jurídicas constavam no cadastro municipal como clínica de assistência psicossocial e loja de artigos de tarô, ambas com endereço em Sobradinho.

A Draco identificou dezenas de empresas de fachada abertas entre fevereiro e julho de 2026, todas com capital social idêntico e endereços concentrados em Sobradinho, Sobradinho II e Ceilândia. Segundo a polícia, a rede usava essas firmas para receber os valores, concentrá-los e redistribuí-los entre pessoas, empresas e instituições de pagamento, inclusive com conversão em criptoativos.

A fintech e as licenças estaduais

O centro financeiro do esquema, de acordo com a investigação, era uma fintech sediada em São Paulo, autorizada pelo Banco Central a funcionar como Sociedade de Crédito Direto. As cobranças por Pix dos sites investigados caíam em contas mantidas nela. A análise financeira indica movimentação de cerca de R$ 1 bilhão, com repasses a empresas investigadas e pagamentos ligados a casas de apostas sem autorização. Em 30 de julho de 2026, o Banco Central já havia divulgado a intenção de cancelar a autorização da instituição.

Os mandados alcançaram a fintech, duas empresas do mesmo grupo e seus dirigentes. No caso da fintech, o bloqueio atinge apenas os recursos próprios da sociedade; as contas de clientes que não são investigados ficam preservadas.

A polícia também apurou que os sites investigados tentaram dar aparência de legalidade com autorizações das loterias estaduais da Paraíba e do Rio de Janeiro. Nenhum deles estava contemplado por essas licenças, restritas a territórios, marcas e portais aprovados pelos órgãos locais, e elas perderam validade com o fim do prazo de transição da Medida Provisória 1.394/2026, de 25 de setembro, que proibiu a exploração, a oferta e a publicidade de apostas de quota fixa sem respaldo federal.

O que a Justiça determinou

As ordens saíram do Juízo das Garantias de Sobradinho. Além do bloqueio de contas até R$ 3,483 bilhões, a decisão determinou:

  • indisponibilidade de bens mantidos em instituições supervisionadas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM);
  • suspensão do CNPJ e dos registros em juntas comerciais de 100 empresas;
  • proibição de abrir novas contas bancárias, por 90 dias, para os investigados;
  • quebra dos sigilos bancário e fiscal de 82 pessoas físicas e 83 pessoas jurídicas;
  • sequestro de veículos de alto padrão localizados durante as buscas.

Os nomes dos investigados não foram divulgados nas informações reunidas pelo Metrópoles, e a reportagem não traz posicionamento da fintech ou das empresas citadas. Ninguém foi condenado: as pessoas e empresas alvo da operação seguem na condição de investigadas, e o espaço para defesa permanece aberto.

A operação ocorre dois dias depois da audiência pública no Supremo Tribunal Federal sobre a proibição das bets, em que o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, citou R$ 3,3 bilhões em movimentações suspeitas bloqueadas desde 2018. O inquérito segue na Draco, que analisa o material apreendido.